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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Por que Deus permitiu poligamia / bigamia na Bíblia?

A questão de poligamia na Bíblia é bem interessante porque a maioria das pessoas enxerga poligamia como imoral, apesar de que não podemos encontrar nenhuma passagem que explicitamente condena tal ato. O primeiro exemplo de poligamia / bigamia na Bíblia foi Lameque em Gênesis 4:19: “E tomou Lameque para si duas mulheres…” Vários homens importantes na Bíblia eram polígamos. Abraão, Jacó, Davi, Salomão e outros tinham várias mulheres. Em 2 Samuel 12:8, Deus, falando através do profeta Natã, disse que se as esposas e concubinas de Davi não fossem suficientes, Ele teria providenciado ainda mais para Davi. Salomão tinha 700 esposas e 300 concubinas (esposas de um status inferior) de acordo com 1 Reis 11:3. Como devemos lidar com esses exemplos de poligamia no Velho Testamento? Há três perguntas que precisam ser respondidas. (1) Por que Deus permitiu poligamia no Velho Testamento? (2) Como Deus enxerga poligamia hoje? (3) Por que houve uma mudança?

(1) Por que Deus permitiu poligamia no Velho Testamento? A Bíblia não diz especificamente porque Deus permitiu poligamia. O melhor que podemos fazer é elaborar especulações “informadas”. Há alguns fatores importantes a serem considerados. Primeiro, sempre tem existido mais mulheres no mundo do que homens. Estatísticas atuais mostram que aproximadamente 50.5% da população mundial são mulheres, com homens sendo 49.5%. Ao supor que também era assim nos tempos antigos, e ao multiplicar por milhões de pessoas, haveria dezenas de milhares de mulheres a mais do que os homens. Segundo, guerras nos tempos antigos eram muito brutais, com uma taxa de mortalidade muito alta. Isso teria resultado em uma porcentagem ainda maior de mulheres. Terceiro, devido a sociedades patriarcais, era praticamente impossível que uma mulher solteira providenciasse para si mesma. As mulheres frequentemente não tinham nenhuma educação ou treino. As mulheres dependiam de seus pais, irmãos e maridos para sua provisão e proteção. Mulheres solteiras eram sujeitas frequentemente à prostituição e escravidão. Quarto, a diferença significante entre o número de mulheres e homens teria deixado muitas, muitas mulheres em um situação muito indesejável.

Então, aparenta ser o caso que Deus permitiu poligamia para proteger e providenciar pelas mulheres que provavelmente não achariam um marido de outra forma. Um homem que tinha várias esposas providenciava e protegia todas elas. Enquanto acreditamos que esse não era o ideal, viver em um lar polígamo era melhor do que as outras alternativas: prostituição, escravidão, fome, etc. Além de proteção e provisão, poligamia capacitou um crescimento muito mais rápido da humanidade, realizando o comando de Deus de “sede fecundos e multiplicai-vos/ povoai a terra e multiplicai-vos nela” (Gênesis 9:7). Homens são capazes de engravidar várias mulheres no mesmo período de tempo... causando um crescimento na humanidade muito mais rápido do que se cada homem pudesse produzir apenas uma criança a cada ano.

(2) Como Deus enxerga poligamia nos dias de hoje? Mesmo quando permitiu poligamia, a Bíblia apresenta monogamia como o plano que mais se conforma com o plano ideal de Deus para o casamento. A Bíblia diz que a intenção original de Deus era para que um homem fosse casado com uma só mulher: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher (não mulheres), tornando-se os dois uma só carne (não várias carnes)” (Gênesis 2:24). Enquanto Gênesis 2:24 está descrevendo o que o casamento é, ao invés de quantas pessoas estão envolvidas, o uso consistente do singular deve ser destacado. Em Deuteronômio 17:14-20, Deus disse que os reis não deviam multiplicar esposas (ou cavalos ou ouro). Enquanto isso não pode ser interpretado como um comando para que os reis fossem monogamistas, ainda pode ser entendido que ter várias mulheres causa problemas. Isso pode ser visto claramente na vida de Salomão (1 Reis 11:3-4).

No Novo Testamento, 1 Timóteo 3:2,12 e Tito 1:6 dá “marido de uma só esposa” como uma das qualificações para liderança espiritual. Há certo debate em relação ao que essa qualificação significa. A frase pode ser traduzida literalmente como “homem de uma mulher só”. Se esta frase está ou não se referindo exclusivamente à poligamia, de forma alguma pode um polígamo ser considerado “marido de uma só esposa”. Mesmo que essas qualificações sejam especificamente para posições de liderança espiritual, elas devem ser adotadas igualmente por todos os Cristãos. Não devem todos os Cristãos ser “irrepreensível…temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento...” (1 Timóteo 3:2-4)? Se somos chamados a ser santos (1 Pedro 1:16), e se esses padrões são santos para os presbíteros e diáconos, então esse padrões são santos para todos.

Efésios 5:22-23, uma passagem que fala do relacionamento entre maridos e esposas, quando se refere a um marido (singular) também se refere a uma esposa (singular). “...porque o marido é o cabeça da mulher (singular)… Quem ama a esposa (singular) a si mesmo se ama. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher (singular), e se tornarão os dois uma só carne... cada um de per si também ame a própria esposa (esposa) como a si mesmo, e a esposa (singular) respeite ao marido (singular)”. Enquanto uma outra passagem paralela, Colossenses 3:18-19, refere-se a maridos e esposas no plural, é bem claro que Paulo está se dirigindo a todos os maridos e esposas entre os crentes de Colosso; ele de forma alguma está afirmando que um marido pode ter várias esposas. Em contraste, Efésios 5:22-33 está descrevendo especificamente o relacionamento matrimonial. Se poligamia é permitido, toda a ilustração do relacionamento de Cristo com o Seu corpo (a igreja), e o relacionamento do marido com sua mulher, cai aos pedaços.

(3) Por que houve uma mudança? Não é uma questão de Deus desaprovando algo que Ele previamente aprovou, mas sim uma questão de Deus restaurando o casamento ao Seu plano original. Mesmo quando estudamos Adão e Eva (não Evas), poligamia não era a intenção original de Deus. Deus aparenta ter permitido poligamia para resolver um problema, mas era o Seu desejo que esse problema nunca tivesse ocorrido. Na maioria das sociedades modernas, não há necessidade alguma para poligamia. Em muitas culturas de hoje, as mulheres podem se proteger e providenciar para si mesmas – removendo o único aspecto “positivo” de poligamia. Além disso, muitas nações modernas declaram poligamia ilegal. De acordo com Romanos 13:1-7, devemos obedecer as leis que o governo estabelece. A única situação onde desobedecer a lei é permitido nas Escrituras é se a lei contradiz os comandos de Deus (Atos 5:29). Já que Deus apenas permite poligamia, mas não faz dela um comando, uma lei que proíbe poligamia deve ser respeitada.

Será que existem algumas situações onde poligamia seria aceito ainda hoje? Talvez... mas é insondável que não existiria nenhuma outra solução. Devido ao aspecto de “uma só carne” do casamento, à necessidade de união e harmonia no casamento e à falta de uma necessidade verdadeira para a existência de poligamia, somos firmes na crença de que poligamia não honra a Deus e que não é o Seu plano para o casamento.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Romanos, a epístola dos justificados pela fé

A maior e mais profunda epístola do apóstolo Paulo foi a aos romanos. Destaca-se por seu alto nível doutriná­rio. Na esfera da teologia é a mais significativa obra já pro­duzida. Eminentes mestres da Bíblia têm feito declarações que valorizam ainda mais a obra de Paulo e aguçam o inte­resse do leitor.

Cinco importan­tes doutrinas bíblicas são apresentadas na carta e obede­cem a uma ordem cronológica especial, visto a imperiosa necessidade da igreja em Roma. Alguns problemas de or­dem doutrinária obrigaram Paulo a escrever à igreja, para dirimir dúvidas existentes.


O Autor

A melhor maneira de compreender esta carta é conhe­cer o seu autor. Muitos livros têm sido escritos sobre a vida deste grande homem de Deus. Suposições históricas têm sido levantadas para realçar a nobreza deste grande após­tolo. Entretanto, tudo o que se conheceu acerca de Paulo encontra-se no Novo Testamento.

Paulo era judeu de sangue, da tribo de Benjamim (Rm 11.1), e natural de Tarso, na Cilícia. Em Jerusalém, foi fa­riseu zeloso, tendo como mestre o respeitável Gamaliel (At 22.3; 26.4,5). Era conhecido e respeitado por seu zelo extre­mo da religião judaica. Por essa razão, foi implacável per­seguidor dos cristãos antes de se converter ao cristianismo (At 7.58; 8.1; 9.1; 22.4; Gl 1.13; Fl 3.6; 1 Tm 1.13).

Paulo foi contemporâneo de Jesus em sua vida terres­tre, e certamente conhecia a sua fama entre os judeus. Não foi possível provar até hoje que Paulo tivesse conhecido Je­sus pessoalmente, senão pela fama do seu ministério itinerante na Palestina. Na realidade, Paulo o conheceu verda­deiramente no caminho de Damasco. O Senhor já havia ressuscitado e subido ao Pai, quando o implacável "Saulo de Tarso" preparou-se para mais uma investida cruel con­tra os primeiros crentes. Mas foi detido pela poderosa luz do Rei dos reis, Jesus, o Salvador. Uma transformação imediata e regeneradora aconteceu, e ele converteu-se a Cristo (At 9.1,29; Gl 1.11; 2.1).

Acompanhando seus passos nos Atos dos Apóstolos e, posteriormente em suas cartas, descobrimos em Paulo uma personalidade marcante que muito influiu em seu mi­nistério. Há algo de singular neste gigante da Igreja primi­tiva. Características fascinantes desse grande apóstolo se descobrem em cada uma das suas cartas. Estas caracterís­ticas vislumbram num misto de austeridade e ternura, de severidade e flexibilidade, de intransigência e sensibilida­de. Em suma, observamos na alma de Paulo, a lógica e o sentimento. Os seus ensinos são profundos porque encer­ram verdades profundas. Os seus escritos são cristocêntricos e não divagam em superficialidades. Cristo foi seu as­sunto central nos ensinos e pregações. Sua teologia, pro­funda e racional, destaca um cristianismo moralista e põe como ponto alto a pessoa de Cristo.

Às vezes, o estilo de Paulo parece torná-lo duro e in­tratável no que tange à sua intransigência em assuntos doutrinários. Entretanto, ele cultivava a simpatia pessoal ao lembrar nomes, enviando saudações aos amigos con­quistados no campo missionário.

Na verdade, temos muito que aprender da vida deste grande apóstolo. Com indiscutível segurança e sem qual­quer resquício de vaidade, ele nos convida a sermos seus imitadores (1 Co 4.16) e diz: "o que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, é vistes em mim, isso praticai" (Fl 4.9).


Data e Lugar

Não é difícil estabelecer o lugar e a ocasião em que foi escrita a carta. Paulo fazia a terceira viagem missionária é, quando escreveu a carta, estava na próspera cidade de Corinto, capital da província romana de Acaia, no território da Grécia. Depois de ter passado em Éfeso algum tempo, doutrinando e estabelecendo a igreja ali, Paulo foi a Corinto. Por três meses ficou hospedado na casa do fiel amigo Gaio, possivelmente na primavera de 57 ou 58 d.C. Dese­jando voltar a Jerusalém, por considerar ter terminado seu trabalho no Oriente, levantou ofertas das igrejas gentílicas, para ajudar os crentes perseguidos que passavam pri­vações em Jerusalém (Rm 15.25; 1 Co 16.1-14; 2 Co 8.1 e 9.15).

Com o ardor missionário queimando o seu interior, sua visão evangelística ia mais além - à Espanha. No ca­minho para a Espanha, Roma era escala obrigatória, por isso Paulo aproveitou a oportunidade para escrever esta carta aos crentes em Roma, visto que desejava expor a fé cristã, para dirimir as dificuldades doutrinárias existentes na igreja em Roma, das quais Paulo era sabedor.


O Plano da Carta

Numa seqüência espetacular, o escritor destaca al­guns aspectos principais dentro da sua carta. A doutrina da salvação é apresentada dentro de 4 itens essenciais: o teológico (1.18-5.11), o antropológico (5.12-8.39); o históri­co (9.1-11.36); e o ético (12.1-15.33). Esse plano alcança toda a Carta, e contém verdades incontestáveis e irremovíveis.

1. Na esfera teológica (1.18-5.11), Paulo apresenta a condição perdida dos homens, sem a mínima possibilidade de salvação por méritos próprios, tanto para judeus como para gentios. Logo depois, Cristo é a solução, visto que, por sua morte, todos os pecadores podem ser justificados da pena de condenação. O pecador é justificado mediante a obra expiatória de Cristo Jesus. Esta justificação é efetua­da através da fé confessada em Jesus. É a fé sem as obras da Lei. Esta fé introduz o pecador a uma nova vida de santificação e poder.

2. Na esfera Antropológica (5.12-8.39), a vida toma outra perspectiva. A ilustração do primeiro Adão e do se­gundo Adão, coloca o crente de frente à realidade espiri­tual. O primeiro Adão foi vencido pelo pecado, mas o se­gundo Adão venceu o pecado, e venceu por todos os ho­mens. Um novo regime de vida, orientado pelo Espírito Santo.

3. Na esfera Histórica (9.1-11.36), Paulo destaca a questão da rejeição de Israel ao plano divino. A doutrina da salvação é apresentada de maneira explícita. Havia um grupo de judeus cristãos que, amarrado ainda às exigên­cias da religião judaica, queria impor sobre os gentios con­vertidos os mesmos requisitos da lei mosaica. Entretanto, Paulo apresentou a obra salvadora de Cristo com sentido universal, extensiva a todos os homens.

4. Na esfera Ética (12.1-15.33), Paulo mostra algumas implicações do Evangelho para a vida diária. Responsabi­lidades éticas para com a igreja, a família e a vida material são colocadas em destaque. Não pertencemos ao mundo, mas estamos no mundo (Jo 17.11,16). Paulo procura mobi­lizar os crentes para uma vida de santidade total, para um rendimento incondicional a Cristo. As doutrinas da santificação e do serviço cristão são postas em destaque. Aspec­tos morais da vida cristã são tratados com muita proprie­dade por Paulo, tornando imperativa uma maneira de vi­ver santa e piamente.

A Doutrina do Pecado

A doutrina do pecado é apresentada na Carta aos Ro­manos de modo muito realista e numa perspectiva de sua prática. O pensamento moderno tenta salvar o homem pe­cador oferecendo-lhe educação, religião e filosofia, visando com estes intentos moralistas tornar bom o homem mergu­lhado na lama do pecado. Entretanto, a realidade do peca­do é outra. O homem é pecador e indesculpável diante de Deus. Nesta primeira parte do estudo da Carta aos Roma­nos, Paulo, sob a unção do Espírito Santo, como um medico capaz, diagnostica o mal que condena o homem peca­dor, mas apresenta, também, o remédio divino contra esse mal chamado pecado.

Para que tenhamos uma visão mais ampla sobre esta doutrina precisamos conhecer a essência do pecado confor­me a Bíblia a apresenta. Existem palavras no Antigo e no Novo Testamento que mostram as várias facetas do pecado. As línguas originais da Bíblia, o hebraico e o grego, dão-nos vários significados acerca do pecado. Fundamen­talmente, pecado no hebraico é "chatta'th" e no grego é "hamartia" - palavras que dão a idéia do pecado como "um mal moral", mas que, essencialmente, significam an­tes "errar o alvo". Entende-se, então, que o homem foi criado com um alvo específico, mas ao pecar, perdeu esse alvo.

Portanto, nesta carta, a doutrina do pecado é apresen­tada numa teologia realista em que os aspectos negativos e positivos da Justiça de Deus são colocados de modo prático na vida do pecador.
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A Doutrina da Justificação

Ao estudarmos a Doutrina do Pecado (1.18-3.20) des­cobrimos que ninguém pode ser justificado pela justiça hu­mana. Entretanto, é na doutrina da justificação, no texto de 3.21 a 5.21, que o pecador encontra o caminho da justifi­cação, através da obra expiatória de Cristo. No primeiro estado, o pecador está perdido e sem possibilidade alguma de se justificar diante de Deus. No segundo estado, o peca­dor encontra Cristo que o justifica.

É a partir do capítulo 3.21 que o pecador, judeu ou gentio, encontra um novo caminho através dos méritos de Cristo Jesus. É aqui que ele pode ser perdoado e declarado livre da pena do seu pecado, perante Deus.

Justificação significa absolvição da culpa, cuja pena foi satisfeita. Significa ser declarado livre de toda culpa, tendo cumprido todos os requisitos da lei.

Justificação é um termo forense que denota um ato ju­dicial da administração da lei. Esse ato judicial legaliza a situação do transgressor perante a lei e o torna justo, isto é, livre de toda a condenação.

Cristo assumiu a pena do pecador e foi sentenciado em lugar do pecador. Ele sofreu a pena contra o pecador. Cumprida a pena, o veredicto final da justiça divina é a jus­tificação do pecador. Entende-se então que ser justificado não significa que a justiça tenha sido adiada, ou que ela não tenha sido cumprida. Na verdade, Cristo cumpriu toda a justiça exigida contra o pecador, visto que o pecador não podia pagá-la.

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A Doutrina da Santificação

Antes de começar a explicação textual, é preciso com­preender e comparar dois aspectos da salvação, que são: o aspecto legal e o aspecto ético e moral. No aspecto legal es­tá a justificação, que trata da quitação da pena do pecado. Significa que a exigência da Lei foi cumprida. Porém, no aspecto moral, está a santificação que trata da vivência co­tidiana após a justificação. - Como compreender então a relação entre a justificação e a santificação?

Em primeiro lugar, a santificação trata do nosso estado, assim como a justificação trata da nossa posição em Cristo. Observe isto: Na justificação somos declarados jus­tos. Na santificação nos tornamos justos. A justificação é a obra que Deus faz por nós como pecadores. A santificação diz respeito ao que Deus faz em nós. Pela justificação so­mos colocados numa correta e legal relação com Deus. Na santificação aparecem os frutos dessa relação com Deus. Pela justificação nos é outorgada a segurança. Pela santifi­cação nos é outorgada a confiança na segurança.

Em segundo lugar, a santificação envolve, também, o aspecto posicional. Se na justificação o crente é visto em posição legal por causa do cumprimento da Lei, na santifi­cação o crente é visto em posição moral e espiritual. Posicionalmente, o crente é visto nesses dois aspectos aborda­dos que são; o legal e o moral. Legalmente, ele se torna jus­to pela obra justificadora de Jesus Cristo. Moralmente, ele, se torna santo por obra do Espírito Santo.

Em terceiro lugar, é preciso perceber a distinção entre justificação e santificação. A primeira distinção refere-se à justificação como obra definida e realizada. É obra com­pleta e perfeita porque o "Perfeito Justo" (Jesus) realizou esta obra. Porém a santificação é obra do Espírito Santo. É uma obra progressiva à medida da fé de cada crente. A jus­tificação e a santificação se completam, isto é, estão liga­das no propósito da salvação. Não pode haver santificação sem justificação. Mas, se fosse possível apenas a realização da justificação, qual seria a esperança depois dela? Por isso, a santificação é uma obra indispensável e dinâmica na vida do crente justificado.

Em quarto lugar, no capítulo 6.1-11, veremos o pro­cesso espiritual e dinâmico que se efetiva na vida do peca­dor, partindo da justificação para a santificação. Outrossim, a justificação trata da culpa do pecado, enquanto a santificação se preocupa da libertação do poder do pecado. Mais duas coisas devem chamar a nossa atenção quanto à obra de Cristo por nós. Primeiro, a justificação foi realizada por Cristo sem nós (3.21). Segundo, a santificação é transmitida por Cristo para nós (6.3; 8.1).


A Doutrina da Salvação em Relação a Israel

Ao estudarmos a Doutrina da Salvação obedecendo a certa ordem gradual nos capítulos 1 a 8. Entretanto, os capítulos 9,10 e 11 formam um parêntese dentro da seqüência doutrinária, quando o apóstolo Paulo confronta a "sorte de Israel" no plano da salvação. Alguns teólogos di­zem tratar-se de uma "teodicéia", ou seja, a vindicação de Deus, ou a justificação do seu tratamento com Israel.

Esses capítulos formam uma trilogia especial. O capí­tulo 9 trata da soberania divina para com Israel, focalizan­do a "eleição" da nação israelita como "o povo escolhido de Deus" e gira em torno do passado. O capítulo 10 trata da responsabilidade humana de Israel e focaliza a sua re­jeição no presente. O capítulo 11 apresenta a bênção salva­dora para Israel, como resultado da misericórdia de Deus.

Nos três capítulos em estudo notaremos que, no capí­tulo 9, as promessas de Deus são para os fiéis, mediante a fé nele, e não a conformidade exterior à Lei. No capítulo 10, Paulo destaca que é impossível escapar ao fato da culpa do pecado. Portanto, recusar a obra expiatória de Jesus é transgressão total e indesculpável. No capítulo 11, a sal­vação provida por Deus através de Jesus, seu Filho é privi­légio de judeus e gentios.

Extraido da Revista Betel, 2006, Epístolas às igrejas de Cristo

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

As Igrejas de Deus

 
"Pois vós, irmãos, vos tornastes imitadores das igrejas de Deus em Cristo
Jesus que estão na Judéia" (1 Tes. 2:14)

A ignorância que prevalece no Cristianismo agora em relação às Igrejas de Deus é profunda e mais geral que qualquer outro erro sobre qualquer outro tema das Escrituras. Muitos que são fortes em relação ao Evangelho e são corretamente ensinados sobre os grandes fundamentos da fé, estão equivocados em relação à Igreja. Há de se notar que a confusão que abunda diz mais respeito a palavra "Igreja". Há poucas palavras com tamanha variedade de sentidos. O homem comum entende por "igreja" um edifício no qual as pessoas se congregam para a adoração pública. Porém os que compreendem melhor, sabem que o termo se refere as pessoas que se congregam neste edifício.

Outros usam o termo em um sentido denominacional e chamam de a "Igreja Metodista" ou a "Igreja Presbiteriana". Também se emprega para chamar de instituições do Estado como a "Igreja da Inglaterra" ou a "Igreja da Escócia. Para os papistas, a palavra "igreja" é quase sinônimo da palavra "salvação", porque eles ensinam que todos os que estão fora da "Santa Igreja Mãe" estão eternamente perdidos.

Para muitos que são até mesmo povo de Deus, parece não interessar-lhes o que Deus pensa sobre o tema. É triste notar que homens devotos no Evangelho, que proclamam a Palavra de Deus, nos comentam que não se molestam em relação à doutrina da Igreja; que a salvação é um tema mais importante; e o estabelecimento dos Cristão nos fundamentos é tudo o que é necessário. Vemos que eles dão capítulo e versículo para cada declaração que fazem e enfatizam a autoridade da Palavra de Deus, porém cerram os olhos à seus ensinamentos sobre a Igreja.

Que constitui uma Igreja Neotestamentária !
Que haja multidões de supostos Cristãos que desdenham a importância desta questão em manifesto. Suas ações os demostram. Não se molestam em contestar a pergunta. Alguns estão contentes em ficar fora de qualquer Igreja terreal Outros se unem a alguma igreja por considerações sentimentais, porque seus pais ou seus parentes pertencem à ela. Todavia outros se unem a uma igreja por motivos mais baixos, por razões políticas ou de negócios. Porém isto não deve ser assim.
Se o leitor é um Anglicano, deve sê-lo porque está convencido de que sua igreja é a mais bíblica. Se é presbiteriano, deve sê-lo pela convicção de que sua igreja está mais de acordo com a Palavra de Deus. E assim também se és Batista, ou Metodista, etc.
Há muitos outros que não guardam nenhuma esperança de poder contestar satisfatoriamente a pergunta: O que é uma Igreja Neotestamentária ! A confusão que causam no Cristianismo, as numerosas seitas e denominações, que diferem amplamente na doutrina e na constituição da igreja e na sua idéia sobre o governo, tem desanimado a muitos. Não dispõe de tempo necessário para examinar as declarações de muitas denominações. Muitos Cristãos são pessoas muito ocupadas, que trabalham muito para ganhar a vida, e não tem o tempo necessário para investigar adequadamente os méritos escriturísticos dos diferentes sistemas eclesiásticos. Consequentemente deixam de um lado a questão, porque a vem demasiadamente difícil e complexa para poder chegar a uma conclusão satisfatória e conclusiva. Porém não, a solução não deve ser assim. Em vez de que estas diferenças de opiniões nos deixem perplexos, devem estimular-nos a chegar a compreender a mente de Deus em relação ao assunto. Se Ele nos diz que devemos "comprar a verdade", o que implica que o esforço e o sacrifício são necessários, somos convidados a "provar todas as coisas".
Agora, é óbvio a todos que deve haver uma maneira mais excelente do que examinar os credos e os artigos de fé de todas as demais denominações. O único método satisfatório para descobrir a resposta divina à pergunta é voltarmos para o próprio Novo Testamento e estudar seus ensinamentos relacionados à "Igreja"; não os pontos de vista de algum homem piedoso; não aceitando o credo de uma Igreja a qual pertencem os meus pais; mas sim provando todas as coisas por si mesma. O povo de Deus não tem nenhum direito de organizar uma igreja sobre fundamentos que não são os que  governaram as Igrejas no tempo do Novo Testamento. Uma instituição cujos ensinamentos ou governo são contrários aos Novo Testamento sem dúvida não é uma igreja neotestamentária.
Agora, se Deus tem considerado de suma importância colocar entre as páginas de inspiração, o que é uma igreja  neotestamentária, então deve ser importante para cada homem ou mulher estudar o que está escrito, e submetermos a sua autoridade e conformarmos à sua conduta. Assim que apelo ao Novo Testamento unicamente e busco a resposta a nossa pergunta.
1. Uma Igreja Neotestamentária é um corpo local de crentes. Muita confusão tem sido o resultado de se utilizar adjetivos que não se encontram no Novo Testamento. Se fossemos perguntar a alguns Cristãos: a que igreja você pertence ? Contestariam: a grande igreja invisível de Cristo - uma igreja
que é intangível e invisível. Quantos repetem o Credo dos Apóstolos, "Creio na santa igreja católica !, que certamente não era parte alguma no credo que os apóstolos mantiveram. Outros falam de uma "igreja militante" e de uma  igreja triunfante", porém nenhum destes termos se encontram nas Escrituras, e os empregarmos somente cria dificuldade e confusão. No momento que deixamos de reter "o modelo das sãs palavras" (2 Timóteo 2:13) e usamos termos não-escriturísticos, somente nos confundimos ainda mais. Não podemos melhorar as Sagradas Escrituras. Não há necessidade de inventar mais temos, fazê-lo é criticar o vocabulário do Espírito Santo. Quando alguns falam de uma igreja universal de Cristo, empregam um termo anti-escriturístico. O que querem dizer é "a família de Deus". Esta última expressão inclui toda a companhia dos eleitos, porém a palavra "Igreja" não tem o mesmo sentido.
O tipo de Igreja que é enfatizado no Novo Testamento, não é nem invisível nem universal, mas visível e local. A palavra para "igreja" é ekklesia e os que conhecem a língua grega estão de acordo que significa uma assembléia.
Uma assembléia é uma companhia de gente que se reúne atualmente. Se nunca se reúnem, então isso seria um mal uso da linguagem dizer que são uma assembléia. Por isso, como todo o povo de Deus nunca tem estado em uma assembléia, juntos, não há uma Igreja ou assembléia universal. Essa igreja é
todavia futura porque ainda não tem uma existência corporal.
Para provar o que se disse acima, vamos examinar as passagens onde o termo foi usado pelo nosso próprio Senhor durante os dias de sua carne. Somente duas vezes nos quatro Evangelhos encontramos a Cristo falando de sua “Igreja” . A primeira está em Mateus 16:18, onde disse Jesus a Pedro "Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela". A que tipo de Igreja se referia o Salvador ! A grande maioria dos Cristãos pensam que foi a grande Igreja invisível, mística e universal, que inclui todos os redimidos. Porém certamente estão equivocados. Se isto houvesse sido o sentido da palavras, necessariamente haveria dito "Sobre esta pedra estou construindo minha Igreja". Porém disse "construirei", tempo futuro. O que demonstra que quando falou estas palavras, a Igreja não tinha existência, salvo no propósito de Deus. A igreja à qual Cristo se refere em Mateus 16:18 não podia ser universal, isto é, uma igreja que inclui todos os santos de Deus, porque o tempo do verbo que emprega manifestamente exclui os santos do Antigo Testamento. Além disso, nosso Senhor não se referia à Igreja na glória, porque essa Igreja já não estará sob o perigo das portas
do inferno. Sua declaração que "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" sem dúvida esclarece que se refere a Sua Igreja sobre a terra, uma Igreja visível e universal.
O único outro exemplo de nosso Senhor falando da Igreja quando esteve na terra, se encontra em Mateus 18:17 : "Se recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e, se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano".
Agora, o único tipo de Igreja a qual um irmão pode falar de seus problemas é um Igreja visível e local. Isto é tão óbvio que não há necessidade de falar mais deste ponto. No último livro do Novo Testamento, encontramos o nosso Senhor usando o termo outra vez. Primeiro em 1:11 disse a João "Escreve em um livro o que vês, e enviá-lo às sete igrejas que estão na Ásia". Outra vez, é claro que o
Senhor fala de igrejas locais. Depois disto, o Senhor usa a palavra 19 vezes no Apocalipse e em cada passagem a referência foi à Igrejas locais. Sete vezes repete "O que tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz as igrejas", não disse "ouça o que o Espírito diz à Igreja" - o que haveria dito se a opinião popular fosse a correta.
A última referência no Apocalipse está em Apocalipse 22:16: "Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã". A razão disto é que a Igreja de Cristo ainda não tem nenhuma existência tangível e incorporada, seja na glória ou sobre a terra; tudo o que tem agora são suas Igrejas locais.
Uma prova adicional de que o tipo de Igreja que é enfatizado no Novo Testamento é local e visível, está em outros passagens da Escritura. Lemos da "igreja que estava em Jerusalém" (Atos 8:1), "a igreja que estava em Antioquia" (Atos 13:1); "a igreja de Deus que está em Corinto" (1 Coríntios 1:2) - tomem nota de que ainda que esta Igreja tinha vínculos com as demais Igrejas, se distingue de "todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Coríntios 1:2). Outra vez lemos de Igrejas, plural no número. "Assim as igrejas em toda a Judéia, Galiléia e Samária, tinham paz..." (Atos 9:31); "...As igrejas de Cristo vos saúdam" (Romanos 16:16); "..as igrejas da Galácia" (Gálatas 1:2). Assim que se pode ver que a idéia proeminente e dominante no Novo Testamento, foi de Igrejas locais e visíveis
2. Uma Igreja Neotestamentária é um corpo local de crentes batizados. Por crentes batizados" quero dizer Cristão que tenha sido submergidos em água.
Em todo o Novo Testamento, não há nem um só caso de alguém que chegara a ser membro de uma igreja de Jesus Cristo sem ser primeiro batizado; há muitos casos, muitas indicações e provas de que todos os que pertenciam às igrejas nos dias dos apóstolos eram Cristãos batizados.
Vamos ver primeiro a última parte de Atos 2:47: "E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos". Notem que o versículo não diz que "Deus" ou "o Espírito Santo" ou "Cristo" mas "o Senhor" acrescentava. A razão é esta: "o Senhor" leva a idéia de autoridade e os que Ele acrescentava à igreja haviam se submetido ao Seu senhorio. E a maneira pela qual haviam submetido a Ele está nos versículos 41-42: "De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia  agregaram-se quase três mil almas; e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão no partir do pão e nas orações". Assim que durante os dias mais primitivos desta dispensação, o Senhor  acrescentava à Sua igreja pessoas que estavam batizadas.
Vejam a primeira das epístolas. Romanos 12:4-5 demonstra que os santos em Roma formavam uma igreja local. Agora regressemos a Romanos 6:4-5 onde encontramos o apóstolo dizendo aos membros de Roma (e deles): "Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi
ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se temos sido unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição". Assim que os membros da igreja local em Roma eram cristãos batizados.
Agora considerem a igreja em Corinto. Em Atos 18:8 lemos: "e muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados". Outra prova de que os santos de Corinto foram batizados se acha em 1 Coríntios  1:13-14; 10:2,6. E 1 Coríntios 12:13 traduzido corretamente (espero comentar sobre esta passagem em outro artigo mais adiante) expressamente afirma que a entrada à assembléia local é pelo batismo nas águas.
E antes de passar a outro ponto, permita-me dizer que um igreja composta de crentes batizados é óbvia e necessariamente uma igreja batista - de que mais a vamos chamar ! Este é o nome que Deus deu ao primeiro homem que chamou e comissionou para batizar. O nomeou "João Batista". E por isso os verdadeiros batistas não devem ter vergonha do nome que levam. Se alguém perguntar: por que não chamou o Espírito Santo de a "igreja batista em Corinto"? ou, "das igrejas batistas na Galácia"?  Contestamos, por esta razão: não havia, nesse tempo, necessidade de assinalar distinções utilizando este adjetivo. Não havia outros tipos de igrejas nos dias dos apóstolos, além de igrejas batistas. Todas eram Igrejas Batistas; isto é, todas estavam compostas de crentes batizados de acordo com as Escrituras. São os homens que tem inventado outras "igrejas" e nomes para as igrejas agora em existência.
3. Uma Igreja Neotestamentária é um corpo local de crentes batizados que formam uma organização. Uma assembléia é uma companhia de pessoas que se reúnem juntos em uma organização, de outro modo não haveria nada para distinguir-lhes de uma multidão qualquer. Prova clara disto se acha em  Atos 19:39: "E se demandais alguma outra coisa, averiguar-se-á em legítima assembléia". Estas palavras foram pronunciadas pelo escrivão do povo à multidão que quebrantava a paz. E havendo "apaziguado a multidão" e havendo afirmado que os apóstolos não eram nem ladrões de igrejas ou  blasfemadores da deusa do povo, lhes recordou a Demétrio e seus seguidores que "os tribunais estão abertos e há procônsules"; e lhes convida a acusar-se uns aos outros.
A palavra grega para "assembléia" nesta passagem é ekklesia e a referência foi à corte jurídica Romana, isto é, uma organização governada por leis.
Também as figuras usadas pelo Espírito Santo em relação com a "igreja" são pertinentes unicamente a uma organização local. Em Romanos 12 e em 1 Coríntios 12 Ele emprega o "corpo" humano como uma analogia ou ilustração.
Este exemplo não é próprio para representar uma igreja "invisível" ou  “universal" cujos membros estão esparzidos por toda a terra. Não é necessário recordar ao leitor que não há organização mais  perfeita na terra que o corpo humano, cada membro em seu lugar apropriado, cada um cumprindo seu  dever e função. Em 1 Timóteo 3:15 a igreja é chamada "a casa de Deus". Esta "casa" fala de  organização, cada habitante tendo sua própria recâmara, os móveis em seu lugar, etc.
Outra prova de que uma "igreja" neotestamentária é uma companhia local de crentes batizados, em uma relação organizada, se acha em Atos 7:38, onde o Espírito Santo aplica o termo ekklesia aos  filhos de Israel - "na congregação (igreja) no deserto". Agora bem, os filhos de Israel no deserto eram  uma assembléia organizada, redimida e batizada. Será que alguém se surpreenda que foram batizados? Porém a Palavra de Deus é mui explícita neste ponto: "Pois não quero, irmãos, que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar; e, na nuvem e no mar, todos  foram batizados em Moisés" (1 Coríntios 10:1-2). Também estavam organizados; tinham seus "príncipes" (Números 7:2) e seus "sacerdotes", “anciões" (Êxodo 24:1) e seus "oficiais" (Deuteronômio). Assim pois podemos ver que foi correto aplicar o termo ekklesia a Israel no deserto. E podemos descobrir como sua aplicação a Israel nos ajudar a definir seu sentido exato.
Vemos que uma igreja neotestamentária tem seus "oficiais", seus "anciões" (que é o mesmo que "bispos"), "diáconos" (Timóteo 3:11,12), "tesoureiro" (João 12:6; 2 Coríntios 8:19), e "escrivão" - a enumeração dos membros (Atos 1:15) claramente implica um registro.
4. Uma Igreja Neotestamentária é um corpo local de crentes batizados em uma organização pública e corporalmente adorando a Deus pela maneiras que Ele estabeleceu. Seria necessário citar uma boa  parte do Novo Testamento, para amplificarmos sobre este tema. Melhor é que o leitor leia com  cuidado o livro dos Atos e as epístolas, com uma mente aberta, e encontrará abundante confirmação do tema. Porém somente permita-me dizer em resumo: Primeiro, para manter "a doutrina dos apóstolos" e o companheirismo (Atos 2:42).
Segundo, para preservar e perpetuar o batismo escriturístico e a ceia do Senhor: "as instruções tal como" Paulo as entregou à Igreja (1 Coríntios 11:2).
Terceiro, para manter a disciplina santa: Atos 13:17; 1 Timóteo 5:20-21, etc.
Quarto, para ir a todo o mundo e pregar o Evangelho a toda criatura (Marcos 16:15).
5. Uma Igreja Neotestamentária é independente de tudo, menos de Deus. Cada igreja local é completamente independente de todas as demais. Uma igreja em uma cidade não tem autoridade sobre outra igreja em outra cidade. Nem tampouco pode um grupo de igrejas locais eleger um "comitê", "presbitério" ou "papa" para assenhorar-se sobre os membros daquelas igrejas. Cada igreja tem seu próprio governo, conforme 1 Coríntios 16:3; 2 Coríntios 8:19. Por “governo" quero dizer que sua obra é administrativa e não legislativa.
Uma igreja neotestamentária deve fazer todas as coisas decentemente e em ordem (1 Coríntios 14:40), e sua única regra para ordenar as coisas, é a Sagrada Escritura. Seu único modelo, sua corte de apelação, é a Bíblia e nada mais que a Bíblia, pela qual todas as questões de fé, doutrina, e a vida Cristã são determinadas. Sua única cabeça é Cristo: Ele é seu Legislador, Fonte e Senhor.
A Igreja local deve ser governada pelo que o Espírito disse às igrejas. Por isso logicamente está  separada do Estado e deve recusar o sustento econômico do Estado. Ainda que seus membros são instruídos a submeterem-se "às autoridades superiores" (Romanos 13:1), não devem permitir que o  Estado lhes dite nos assuntos da fé ou da prática.
A administração do governo de uma igreja neotestamentária reside em sua própria membresia e não em um corpo especial de homens, seja dentro ou fora da igreja. Uma maioria de seus membros decidem as ações da igreja. Isto se vê claramente em 2 Coríntios 2:6: "Basta a esse tal (a pessoa  disciplinada) esta repreensão feita por muitos". As últimas duas palavras "por muitos" é tradução de hupo ton pleionon. Pleionon é um adjetivo e literalmente significa pela maioria e é traduzido assim pelo Dr. Charles Hodge, um dos melhores e competentes conhecedores do Grego.
Em resumo: a menos que haja uma companhia de pessoas regeneradas, batizadas de acordo com as Escrituras, organizadas segundo o Novo Testamento, adorando a Deus segundo suas instruções, tendo companheirismo com a doutrina dos apóstolos, mantendo as ordenanças, preservando a disciplina estrita, ativa na evangelização, então não há uma igreja neotestamentária, chame o que se chame.
Porém se uma igreja possui estas características, é então a única instituição em toda terra ordenada, construída e aprovada pelo Senhor Jesus Cristo. Assim que o escritor considera seu maior privilégio, depois de ser salvo, pertencer a uma de Suas igrejas. Que a graça divina me ajude a andar dignamente como membro de Sua Igreja!

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Precioso Sangue de Jesus

O sangue de Jesus Cristo é, sem dúvida, o presente mais precioso que nosso Pai celestial deu à Sua Igreja. Contudo muito poucos cristãos entendem o seu valor e virtude. 

Os cristãos freqüentemente cantam o poder do sangue. De fato, o hino da igreja pentecostal é "Há poder, poder, poder milagroso no precioso sangue do Cordeiro." Mas a maioria dos crentes raramente ingressa no poder deste sangue.

Simplesmente não conhecemos o grande significado do sangue. Por exemplo: constantemente "invocamos o sangue" como um tipo de fórmula mística de proteção. Mas poucos cristãos podem explicar sua grande glória e benefícios.

Se eu lhe perguntasse o que "poder do sangue" significa, você poderia responder, "Significa que os meus pecados foram redimidos que estou livre do cativeiro da iniquidade que todos os meus pecados estão cobertos." Mas além do perdão, o que o sangue de Jesus Cristo significa para você? Poderia você explicar a mim, à sua família, a um colega de trabalho qual o valor e a virtude do sangue de Jesus?
Quero lhe dar um entendimento maior da preciosidade do sangue de Jesus e como pode realizar mudanças maravilhosas na sua vida!

1. Nas Escrituras o Sangue é Citado de Duas Maneiras: Sangue Derramado e Sangue Aspergido!

A maioria dos cristãos sabe a respeito do sangue que Jesus derramou por nós. Quando Cristo levantou o cálice na última Páscoa, disse:

"...Este é o cálice da nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vós." (Lucas 22:20)
Comemoramos Seu sacrifício todas as vezes que participamos da comunhão. Mas este é o limite de conhecimento da maioria dos cristãos sobre o sangue de Jesus. Sabemos somente sobre o sangue sendo derramado e nada sobre sendo aspergido!

A primeira referência bíblica à aspersão do sangue está em Êxodo 12:22. Foi ordenado aos israelitas que pegassem um molho de hissopo, e que este fosse molhado no sangue de um cordeiro sacrificado, e aspergido na verga da porta e suas umbreiras. Naquela noite, quando o anjo exterminador viesse e visse o sangue na umbreira da porta, ele passaria a casa.

Por favor entenda enquanto o sangue era deixado na bacia, ele não tinha nenhum efeito; era meramente sangue que havia sido derramado. O sangue adquiriu poder para salvar somente quando foi levantado da bacia e aspergido.

Por que não poderiam os israelitas simplesmente ter deixado a bacia na soleira da porta e dito: "Não importa o que faremos com ele. Além do mais, sangue é sangue"? Suponha que tivessem colocado a bacia em uma mesa coberta com uma toalha de linho, ou em um pedestal atrás da porta?

Eu digo o que teria acontecido: o anjo da morte teria ferido esta casa! Para cumprir seu propósito de proteção, o sangue teria que ser retirado da bacia e aspergido na porta.

Este sangue de Êxodo 12 é um tipo do sangue de Cristo. O sangue derramado no Calvário não foi desperdiçado - ele não caiu no chão e desapareceu. Não, este precioso sangue foi coletado em uma fonte celestial.

Há um hino evangélico que diz, "Há uma fonte cheia de sangue, e pecadores mergulhados nesta corrente perdem sua culpa e mancha..." Contudo este conceito não é bíblico; nós não mergulhamos no sangue e nem nadamos nele. Não - ele é aspergido sobre nós.

Se Cristo é o Senhor de sua vida, então o umbral de sua porta seu coração foi aspergido com Seu sangue. E esta aspersão não é somente para o perdão mas também para proteção!

Quando você é aspergido, você está totalmente sob a proteção do sangue de Cristo, contra todos os poderes destruidores de Satanás. Quando as tropas dele vêem o sangue de Cristo no umbral de sua porta, elas passam por você. Elas não lhe tocam porque não podem tocar alguém aspergido com o sangue de Cristo!

Então, veja, a preciosidade do sangue tem muito mais do que perdão. O sangue de Jesus não foi deixado na bacia mas foi retirado de lá e aspergido em nosso coração. E está esperando para ser aspergido nos umbrais dos corações ao redor do mundo!

Há também uma aspersão de sangue citada em Êxodo 24: 1-11. Nesta passagem, Deus fez um acordo com 
Israel. Ele prometeu, " Se obedecerem às Minhas palavras, serei Deus para vocês, e vocês serão o Meu povo."

Depois que Moisés leu a lei para o povo, eles responderam, "Nós entendemos e obedeceremos."

Eles concordaram com o acordo feito com o Senhor.

Agora, este acordo tinha que ser selado para ser confirmado e se tornar válido e isto só poderia acontecer através da aspersão de sangue sobre eles. Hebreus nos diz que Moisés "...tomou o sangue...e aspergiu não só o livro, como também sobre todo o povo..." (Hebreus 9:19)

O sangue derramado de oferendas queimadas era mantido em uma bacia. Moisés pegou um pouco deste sangue e despejou parte dele sobre o altar. Depois ele pegou hissopo, mergulhou-o na bacia e aspergiu um pouco do sangue nos doze pilares (representando as doze tribos de Israel). Finalmente, Moisés mergulhou o hissopo na bacia e aspergiu o sangue sobre o povo. Este sangue cobrindo povo, selou o acordo!

Fica claro na passagem acima que a aspersão do sangue deu aos israelitas pleno acesso a Deus, com alegria. Nesta ocasião o sangue não tinha nada a ver com perdão e remissão de pecado mas, antes, com comunhão. Eles agora ficaram santificados, purificados preparados para estarem na presença de Deus.

Depois Moisés, Nadabe e Abiú e os setenta anciãos subiram o monte para se encontrarem com Deus. E o Senhor apareceu a eles, vindo por um caminho feito de pedras de safira. Estes homens viram, diante deles, uma mesa arrumada e a Escritura infere que eles, com naturalidade, conforto e sem temor de julgamento, se sentaram na presença de Deus e comeram e beberam com Ele:

"Ele não estendeu a mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel; porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam." (Êxodo 24:11)

Isto é simplesmente maravilhoso! Estes homens puderam comer e beber na real presença de Deus considerando-se que pouco tempo antes, eles tinham temido por suas vidas. Tudo porque o sangue foi aspergido e eles entenderam a segurança, o poder, a proteção que havia nele. Eles não tiveram medo!

Amados, atualmente estamos em uma nova aliança com Jesus Cristo uma aliança selada pelo Seu próprio sangue. E hoje, igualmente, quando o Seu precioso sangue é aspergido em nossa alma, é com o propósito de comunhão. Assim sendo, você pode corajosamente com naturalidade, sem temor de julgamento entrar na presença de Deus para comunhão. A você foi dado acesso a Ele, sem nenhum pecado que o condene. Você está livre para conversar com Deus e usufruir da Sua companhia!

Uma das mais importantes aspersões de sangue era feita pelo sumo sacerdote. Uma vez por ano ele entrava no Santo dos Santos para fazer expiação, que significa "reconciliação." Este procedimento pretendia limpar os pecados do povo, e assim eles podiam ser reconciliados e ter comunhão outra vez com o Pai celestial.

O sacerdote carregava para dentro do Santo dos Santos um punhado de incenso, um incensário com carvão fumegante do fogo do altar, e um recipiente com o sangue de um novilho imolado. Dentro do Santo dos Santos havia uma arca, em cima da qual repousava uma tampa de ouro puro com um aba ao redor dela. Este era o propiciatório onde Deus "se assentava"; era a Sua verdadeira presença. O propiciatório tinha dois querubins de ouro, um de cada lado, cujas asas cobriam-no.

Depois de se purificar em uma elaborada cerimônia, o sacerdote entrava no Santo dos Santos com grande respeito e temor. Ele colocava o incenso no fogo, ascendendo uma fumaça aromática. (Isto representava as orações de Cristo, intercedendo pelo Seu povo. Jesus sempre se senta à direita do Pai, intercedendo pelos santos.)

Depois o sacerdote molhava o seu dedo no sangue e aspergia-o sete vezes sobre o propiciatório:

"Tomará o sangue do novilho e, com o dedo, o aspergirá sobre a frente do propiciatório; e diante do propiciatório, aspergirá sete vezes do sangue, com o dedo." (Levítico 16:14)

Quando o sangue era aspergido no assento de Deus, se consumava a remissão de todos os pecados, e eram cobertos todos os pecados do passado. Quando o sumo sacerdote saía, o povo sabia que Deus havia aceito o sacrifício, e que seus pecados haviam sido perdoados. Israel nunca duvidou disto!

Amados, nós também temos um sumo sacerdote Jesus, nosso Senhor. E Ele é o nosso Sumo Sacerdote, não somente uma vez por ano, mas o tempo todo até o fim do mundo! Jesus levou Seu próprio sangue para o verdadeiro propiciatório à presença de Deus, o Santo dos Santos e ofertou-o para a remissão de todos os pecados, de todos os crentes, de todos os tempos. Esta foi a aspersão final!

A respeito deste ato as escrituras dizem:

"Não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção." (Hebreus 9:12)
"Muito mais o sangue de Cristo...purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!" (versículo 14).

"...para comparecer, agora, por nós, diante de Deus" (Hebreus 9:24)

Jesus levou Seu próprio sangue aos céus por nós! E ele não está ali simplesmente guardado como uma lembrança. É para ser aspergido sobre todos aqueles que vão até Ele pela fé!

2. Como o Sangue de Jesus é Aspergido no Coração?

É triste verificar que muitos crentes não usufruem do poder e da virtude do sangue de Jesus. A escritura mostra-nos claramente é importante sabermos como o sangue foi aspergido nos nossos corações. Isto é realizado de duas maneiras:

O sangue é aspergido sobre nós pelo Espírito de Cristo, que vive em nós.

Jesus asperge Seu próprio sangue em nós quando, pela fé, nós recebemos Sua obra completada no Calvário. Esta não é uma aspersão física; antes, é uma transação legal e espiritual. Ele asperge o sangue nos nossos corações em resposta à nossa fé. O sangue de Jesus não produzirá algum efeito nas nossas almas, até que verdadeiramente creiamos no poder de Seu sacrifício no Calvário.

"A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação [reconciliação], mediante a fé..." (Romanos 3:25).
Igrejas em todo mundo tomam parte regularmente da comunhão. Contudo, Paulo nos adverte para não "tomar o cálice indignamente." Ele aqui não se refere a participar da mesa da comunhão depois que tivermos falhado em algo; sabemos que se nos arrependemos do nosso pecado, Jesus nos perdoará e nos limpará de toda iniquidade.

Não acredito que Paulo esteja dizendo que devemos entender adequadamente o corpo de Cristo. Ele está falando sobre irmos à mesa do Senhor, bebendo o simbólico cálice do Seu sangue não acreditando, contudo, no poder deste sangue! Tem a ver com permanecer em condenação e medo -- não crendo que o sangue de Cristo nos justificou e santificou aos olhos de Deus.

Muitos crentes acham-se excluídos da maravilhosa experiência da mesa do Senhor, porque não vão, com fé, ao sangue. Paulo está dizendo, "Não é de admirar que muitos dentre vocês estejam doentes. Vocês estão fracos porque não acreditam na vitória total do sangue de Cristo!"

Tais cristãos estão dizendo, em essência, "Sei que é maravilhoso ser justificado pelo sangue de Jesus Cristo. Mas ainda tenho dificuldades em crer que o Senhor me considere justo. Afinal, eu ainda não cheguei lá. Eu ainda me esforço."

Amados, a verdadeira evidência da fé é o repouso! Se você crê de todo o seu coração, isso leva a sua consciência e a sua alma ao repouso. E quando vai à Ceia do Senhor e participa do cálice, você pode dizer, "Eu creio que estou salvo, perdoado, curado, porque creio no sangue. Eu confio nele!"

O sangue de Jesus é aspergido sobre a nossa alma através da pregação do Espírito Santo.

Quando você ouve Cristo e Seu sangue sendo exaltado em pregação do Espírito Santo, saiba que o sangue está sendo aspergido!

Quando Filipe pregou o evangelho para o eunuco, o coração deste homem foi impressionado pela palavra. Imediatamente pediu para ser batizado.
 
Filipe disse a ele, "...É lícito, se crês de todo coração..." (Atos 8:37).

Igualmente, todas as vezes que você se comove com a pregação ungida do Espírito Santo, gritando, "Senhor por favor, me dê toda Sua verdade" você está sendo aspergido com o sangue de Cristo, pela fé!

Neste momento, você pode estar querendo saber, "Como posso saber se o sangue foi aplicado ao meu coração?" Eis aqui três maneiras de você saber se foi aspergido pelo sangue:
 
1- Se você atualmente está querendo andar na luz, permitindo que Espírito Santo evidencie todas as trevas que há em você, saiba que foi aspergido.

"Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado." (1 João 1:7)

João claramente está falando de alguém que está amando a Palavra, sem medo de reprovação -- que diz, 

"Senhor, brilhe a luz do Seu Espírito Santo em todas as fendas do meu coração. Eu quero andar na luz." Se você ama a luz, é um claro sinal que foi aspergido!

2- Se você clama pelo poder e autoridade do sangue de Cristo quando está sob o ataque inimigo, saiba que foi aspergido.

Quando aqueles que não foram aspergidos têm problemas, chamam seu melhor amigo ou um conselheiro, chafurdam no medo e condenação. Mas aqueles aspergidos pelo sangue imediatamente contam com o sangue de Jesus!

Freqüentemente escutamos nos círculos cristãos a frase "invocar o sangue". Mas este não é um termo das escrituras. A palavra invocar aqui significa "justificar"; dando a entender mendigar, implorar. E esta é uma atitude defensiva.

Eu acredito que a nossa atitude deve ser mais firme do que esta. Nós somos guerreiros -- comprados pelo sangue, salvos pelo sangue, mais do que vencedores por meio de Jesus Cristo! Não estamos em um tribunal com o diabo, defendendo uma causa. Não -- nós somos vitoriosos! Jesus conquistou a vitória por nós; Seu sangue prevaleceu. E creio que o nosso grito de guerra deveria ser, "Eu proclamo a vitória do sangue de Jesus!"
 
Eu sou lavado, comprado, justificado, salvo, resgatado pelo sangue. E proclamo a vitória do sangue de Jesus!"

3- Quando você está tão seguro do poder de purificação e de justificação do sangue que sua consciência não mais lhe condena, saiba que o sangue foi aspergido em você.

Sua consciência realiza um trabalho prejudicial quando não lhe desperta ou não lhe anima a obedecer o evangelho. Ela é prejudicial quando desnecessariamente condena-o, acusa-o; quando traz, constantemente, à sua memória o quanto você falhou com Deus, causando depressão e medo.

Mas quando você descansa totalmente no poder de purificação e justificação do sangue de Jesus quando você assume o controle da sua consciência no Espírito ela não é mais acusadora; antes, produz resultados adequados. Quando o diabo levanta uma má acusação, sua consciência proclama a vitória do sangue!

"Aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza da fé, tendo o coração purificado de má consciência..." (Hebreus 10:22)
Uma consciência serena, purificada é sinal de ter sido aspergido com o Seu sangue!

3. Quais São os Benefícios Que Fluem do Sangue de Jesus Uma Vez Que o Seu Coração Foi Aspergido ?

O sangue de Jesus nos redime do pecado e do poder das trevas.

"No qual temos a redenção pelo seu sangue..." (Efésios 1:7). Nós não estamos mais sob condenação ou embaixo do medo!

Muitas pessoas foram redimidas e justificadas pelo sangue mas não sabem disso, porque vivem com medo e em condenação. Foi lhes concedido fé no Senhor mas não entraram na glória de serem justificadas pelo sangue.

São como um homem que contraiu uma enorme dívida e não podia pagá-la. O seu abastado chefe surge e paga a conta sem contar ao empregado depois chama-o para lhe dar a boa notícia.

O homem senta-se, recebe o dossiê com a relação das dívidas, e folheia as páginas para ver a lista de contas acumuladas. Ele pensa, "Eu nunca serei capaz de pagar tudo isto. Vão me colocar na cadeia!"

Quando o chefe vê o semblante apreensivo do seu empregado, fica perplexo. Ele diz, "Perdão você olhou a página um?" O homem folheia o dossiê de volta à primeira página, onde lê: "Pago integralmente."
Muitos cristãos são como este homem: não sabem que os seus pecados foram cobertos, pagos integralmente! Temos que adquirir este conhecimento, pela fé, de maneira a obter o benefício " que é a paz com Deus!

O sangue de Jesus comprou toda a igreja de Deus.

"...para pastoreardes a Igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue" (Atos 20:28).
A igreja de Cristo não está à venda! Esqueça a idéia de Satanás destruindo Sua igreja. Não torça as mãos, lastimando-se, "Ó não, a igreja está indo para o inferno." Não ela está indo para o céu! Por que? Porque foi comprada pelo sangue para a eternidade!

O sangue de Jesus derrubou todas as paredes.

"Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, e destruiu a parede da separação, a barreira de inimizade que estava no meio" (Efésios 2:13-14).

Na Igreja de Times Square, isto tem um grande significado. Mais de setenta nacionalidades congregam nela, mas nossa igreja não tem paredes, nem nacionalidades. Somos todos um em Cristo - uma igreja aspergida pelo sangue. Na verdade, aqueles que foram aspergidos pelo sangue não tem mais paredes. Todas elas desmoronaram!

O sangue de Jesus nos santifica.

"...o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado" (1João 1:7)
Isto deveria colocar no seu rosto um grande sorriso de confiança. Você está santificado completamente aspergido! Esta é uma tarefa contínua do Espírito.

O sangue de Cristo venceu Satanás e o afugentou.

"Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro, e pela palavra do seu testemunho...." (Apocalipse 12:11)
Qual é a palavra do testemunho? É simplesmente esta: "Eu acredito no sangue! Eu comprovo o poder dominador e vencedor do sangue de Jesus e proclamo sua vitória total!"

Se você quer dominar o diabo, permaneça no sangue e proclame o seu poder! O sangue nos dá acesso ao Santo dos Santos - ao nosso Pai Celestial - sem repreensão.
"Portanto, irmãos, tendo ousadia para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus..." (Hebreus 10:19).

Devemos ir ousadamente ao nosso Pai sem medo!

4. O Que Deus Espera de Nós Uma Vez Tendo Sido Aspergidos Com o Sangue de Jesus?

Estamos de qualquer forma obrigados à aspersão? Sim, e muito! Se tivermos sido aspergidos pelo sangue de Jesus, somos ordenados a fazer duas coisas:

Viver na paz - e nunca mais duvidar!

Quando Moisés aspergiu sangue nos israelitas pecadores, eles nunca sequer duvidaram que foram perdoados ou aceitos por Deus. Eles confiaram naquela aspersão!

Atualmente, o sangue aspergido em nós não é de touro, cabra ou ovelha, mas de Cristo, o Cordeiro de Deus. E mesmo assim temos mais dúvida, mais medo, que aqueles israelitas!

Martinho Lutero disse que era uma blasfêmia trazermos de volta para nós todos os pecados colocados sobre Cristo. Eu concordo! É um absoluto sacrilégio em termos de medo, culpa, condenação, dizer: "A Bíblia diz que pela fé estou limpo, justificado e protegido do poder de Satanás, mas eu não posso acreditar que coisa tão gloriosa seja possível!"

Nós temos que louvar Deus com um coração agradecido - nunca duvidando!.

Nos é ordenado agradecer a Deus pelo precioso sangue de Jesus, com grandes louvores:

"...mas também nós gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação" (Romanos 5:11).

"Alegrai-vos no Senhor, e regozijai-vos, vós os justos; e cantai alegremente, todos vós que sois retos de coração" (Salmos 32:11).

"Bem aventurado o povo que conhece o som festivo..." (Salmos 89:15).

"Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegra no meu Deus; pois me vestiu com vestidos de salvação, me cobriu com o manto de justiça..." (Isaías 61:10).

Proclame a vitória do sangue de Jesus na sua vida. E comece a louvá-Lo agora pela promessa daquele grande dia de redenção que está por vir. Amém! 

 

 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Obras da Carne & Frutos do Espírito

“Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: caridade (amor), gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra essas coisas não há lei.” Gl 5.19-23

Nenhum trecho da Bíblia apresenta um mais nítido contraste entre o modo de vida do crente cheio do Espírito e aquele controlado pela natureza humana pecaminosa do que 5.16-26. Paulo não somente examina a diferença geral do modo de vida desses dois tipos de crentes, ao enfatizar que o Espírito e a carne estão em conflito entre si, mas também inclui uma lista específica tanto das obras da carne, como do fruto do Espírito.

OBRAS DA CARNE.

“Carne” (gr. sarx) é a natureza pecaminosa com seus desejos corruptos, a qual continua no cristão após a sua conversão, sendo seu inimigo mortal (Rm 8.6-8,13; Gl 5.17,21). Aqueles que praticam as obras da carne não poderão herdar o reino de Deus (5.21). Por isso, essa natureza carnal pecaminosa precisa ser resistida e mortificada numa guerra espiritual contínua, que o crente trava através do poder do Espírito Santo (Rm 8.4-14; ver Gl 5.17).

As obras da carne (5.19-21) incluem:

(1) “Prostituição” (gr. pornéia), i.e., imoralidade sexual de todas as formas. Isto inclui, também, gostar de quadros, filmes ou publicações pornográficos (cf. Mt 5.32; 19.9; At 15.20,29; 21.25; 1Co 5.1). Os termos moichéia e pornéia são traduzidos por um só em português: prostituição.

(2) “Impureza” (gr. akatharsia), i.e., pecados sexuais, atos pecaminosos e vícios, inclusive maus pensamentos e desejos do coração (Ef 5.3; Cl 3.5).

(3) “Lascívia” (gr. aselgeia), i.e., sensualidade. É a pessoa seguir suas próprias paixões e maus desejos a ponto de perder a vergonha e a decência (2Co 12.21).

(4) “Idolatria” (gr. eidololatria), i.e., a adoração de espíritos, pessoas ou ídolos, e também a confiança numa pessoa, instituição ou objeto como se tivesse autoridade igual ou maior que Deus e sua Palavra (Cl 3.5).

(5) “Feitiçarias” (gr. pharmakeia), i.e., espiritismo, magia negra, adoração de demônios e o uso de drogas e outros materiais, na prática da feitiçaria (Êx 7.11,22; 8.18; Ap 9.21; 18.23).

(6) “Inimizades” (gr. echthra), i.e., intenções e ações fortemente hostis; antipatia e inimizade extremas.

(7) “Porfias” (gr. eris), i.e., brigas, oposição, luta por superioridade (Rm 1.29; 1Co 1.11; 3.3).

(8) “Emulações” (gr. zelos), i.e., ressentimento, inveja amarga do sucesso dos outros (Rm 13.13; 1Co 3.3).

(9) “Iras” (gr. thumos), i.e., ira ou fúria explosiva que irrompe através de palavras e ações violentas (Cl 3.8).

(10) “Pelejas” (gr. eritheia), i.e., ambição egoísta e a cobiça do poder (2Co 12.20; Fp 1.16,17).

(11) “Dissensões” (gr. dichostasia), i.e., introduzir ensinos cismáticos na congregação sem qualquer respaldo na Palavra de Deus (Rm 16.17).

(12) “Heresias” (gr. hairesis), i.e., grupos divididos dentro da congregação, formando conluios egoístas que destroem a unidade da igreja (1Co 11.19).

(13) “Invejas” (gr. fthonos), i.e., antipatia ressentida contra outra pessoa que possui algo que não temos e queremos.

(14) “Homicídios” (gr. phonos), i.e., matar o próximo por perversidade. A tradução do termo phonos na Bíblia de Almeida está embutida na tradução de methe, a seguir, por tratar-se de práticas conexas.

(15) “Bebedices” (gr. methe), i.e., descontrole das faculdades físicas e mentais por meio de bebida embriagante.

(16) “Glutonarias” (gr. komos), i.e., diversões, festas com comida e bebida de modo extravagante e desenfreado, envolvendo drogas, sexo e coisas semelhantes.

As palavras finais de Paulo sobre as obras da carne são severas e enérgicas: quem se diz crente em Jesus e participa dessas atividades iníquas exclui-se do reino de Deus, i.e., não terá salvação (5.21; ver 1Co 6.9).

Fonte: ADMadureira

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Apocalipse 2.1—3.22

No capítulo 1, encontramos “as coisas que tens visto” (1.19) — o passado. No capítu­lo 2 e 3, são registradas “as que são” — o presente. É melhor entender essa seção como que descrevendo condições prevalecentes nas sete igrejas da Ásia.

Muitos estudiosos encontraram aqui sete períodos sucessivos da história da igreja. J. B. Smith apresenta um bom resumo dessa interpretação. Éfeso retrata “o declínio primiti­vo do cristianismo vital no término do primeiro século”, a perda do seu primeiro amor. Esmirna descreve o período da perseguição, nos segundo e terceiro séculos. Pérgamo re­presenta “a união de igreja e estado sob o império de Constantino” (quarto século) com sua consequente corrupção eclesiástica e moral. Tiatira descreve “o domínio da hierarquia ro­mana”, do quinto ao décimo quinto séculos. Sardes aponta para “os dias da Reforma”, no décimo sexto século, em que “algumas pessoas [...] não contaminaram suas vestes” (3.4). Filadélfia fala de “um período de ortodoxia e evangelização por líderes tais como Wesley e Whitefield [século décimo oitavo], quando todas as nações do mundo estavam de ‘portas abertas’ para receber o Evangelho”. Laodicéia mostra “a apostasia do final dos tempos numa linguagem muito parecida com a que foi apresentada por Jesus e os apóstolos Paulo, Tiago, Pedro, João e Judas, acerca dos últimos dias”. Essa apostasia começou com a alta crítica germânica da Bíblia no décimo nono século e alcançou o estágio alarmante repre­sentado pela posição da “morte de Deus” reivindicada por teólogos em 1965.

Inquestionavelmente, há uma coincidência marcante entre as sete cartas e a sequência dos períodos sugeridos. Mas provavelmente é mais correto afirmar que todas as cartas reunidas constituem um quadro geral das condições não só nas sete igrejas da Ásia no fim do primeiro século, mas também em toda a trajetória do cristianismo duran­te toda a era da Igreja. Com isso não estamos negando que certas características descri­tas nessas mensagens eram mais dominantes em um período do que em outro.

As cartas apresentam uma estrutura bastante equilibrada. Smith sugere uma divisão em sete partes para cada igreja:

1) Proclamação;
2) Apresentação;
3) Declaração;
4) Apro­vação;
5) Censura;
6) Exortação;
7) Recompensa.

Nós adotamos um esboço semelhante.

Duas das igrejas, Esmirna e Filadélfia, não recebem uma palavra de desaprovação a respeito delas. Do lado oposto está Laodicéia, com nenhuma palavra de aprovação. Kiddle observa: Duas igrejas, a primeira e a última, são ameaçadas com a extinção completa, uma vez que cada uma carece de qualidades essenciais para a confissão da fé cristã. Louvor inadequado é dado à segunda e sexta igrejas. As três igrejas centrais são elogia­das e castigadas em diferentes graus, porque em cada uma delas existe uma mistura de elementos bons e maus; os fiéis recebem a promessa de recompensas e os infiéis são ameaçados com os mais severos castigos”. Assim, parece haver um plano propositado elaborado ao apresentar essas sete igrejas como representantes das condições existentes em todas as igrejas.

CARTA À IGREJA DE ÉFESO, 2.1-7

1.  Destino (2.1 a)

A primeira carta foi escrita ao anjo (João é informado de que as sete estrelas representam os anjos das sete igrejas. Uma vez que a palavra grega angelos significa “mensageiro” e é claramente usada para mensageiros humanos em Lucas 7.24; 9.52 e Tiago 2.25, muitos acreditam que a referên­cia aqui seja aos mensageiros que seriam enviados com as cartas às sete igrejas — talvez delegados que vieram daqueles lugares para visitar João — ou mais simplesmente, os “pastores” das igrejas. Essa ideia é contestada, visto que nas mais de 60 vezes que a palavra angelos é usada nesse livro dissociada da conexão com as igrejas, ela sempre se refere a seres sobre-humanos. Swete conclui: “Há, portanto, uma forte conjectura de que os angeloi ton ecclesion são ‘anjos’ no sentido que a palavra tem em outras partes do livro”. Charles concorda plenamente. Swete também não concorda em identificá-los como “anjos guardiões” das igrejas. Ele finalmente chega a uma conclusão: “Consequentemente, a única interpretação que sobra é a que entende que esses anjos são duplicatas ou contrapartes celestiais das sete Igrejas, que, assim, vêm a ser identificadas com as próprias Igrejas”. Provavelmente, mais aceitável é o ponto de vista de Erdman de que “anjo” é “o espírito predominante” na igreja, “uma personificação do caráter, temperamento e conduta da igreja”.

Parece que um ponto de vista melhor formulado é o de Alfred Plummer. Ele escreve: “A identificação do anjo de cada igreja com a própria Igreja é mostrada de uma maneira marcante pelo fato de, embora cada epístola ser dirigida ao anjo, ainda assim, a estrofe recorrente seja: “ouça o que o Espírito diz às igrejas”, não “aos anjos das igrejas”. O anjo e a Igreja são os mesmos sob diferentes aspectos: um no seu caráter espiritual personifi­cado; o outro, na congregação dos crentes que coletivamente possuem esse caráter.

Mas nos perguntamos se essa interpretação deixa espaço adequado para a distinção entre as estrelas e os castiçais. Este comentarista é relutante em desistir da visão popu­lar de que os anjos são os pastores das igrejas — um pensamento grandemente confortador: eles são guardados nas próprias mãos de Cristo.) da igreja que está em Éfeso. Essa era a cidade principal da província da Ásia, do lado oeste da Ásia Menor. Na época em que João a escreveu, essa cidade era um grande porto, situ­ado perto da boca do rio Caister. Caravanas nas estradas romanas do norte, leste e sul convergiam aqui, para deixar suas cargas em navios que velejavam para o oeste em direção a Corinto ou mesmo até a Itália. Éfeso era uma metrópole agitada. Essa cidade era a porta de entrada da Ásia. O pro cônsul precisava desembarcar aqui quando iniciava o seu ofício como governador da Ásia. Ao mesmo tempo, ela era a estrada principal para Roma. No início do segundo século, quando os cristãos estavam sendo enviados por navio para Roma para alimentar os leões, Inácio chamou Éfeso de a Rota dos Mártires.

Politicamente, Éfeso era uma cidade livre. Isso significava que ela desfrutava de uma medida considerável de autonomia autônomo. Nessa cidade também ocorriam os famosos jogos anuais.

Na área da religião, Éfeso era o centro de adoração de Ártemis. Seu templo era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Éfeso era chamada de “A Luz da Ásia”. Contudo, ela era uma cidade pagã, repleta de trevas da superstição pagã. Swete escreve: “A cidade era um canteiro de ritu­ais e superstições, um local de encontro do ocidente e do oriente, onde gregos, romanos e asiáticos se acotovelavam nas ruas”.

Por causa da sua importância estratégica, Paulo havia passado mais tempo aqui (perto de três anos, At 20.31) do que em qualquer outro lugar nas suas três viagens missionárias. Ele fez muitos convertidos, tanto judeus quanto gentios (At 19.10) e cons­truiu uma igreja forte. Nos anos 60 d.C., Timóteo foi colocado lá (1 Tm 1.3). A tradição da Igreja Primitiva afirma que João passou os últimos anos da sua vida nesse terceiro grande centro do cristianismo (depois de Jerusalém e Antioquia).

Hoje essa metrópole poderosa do passado é um monte de ruínas. O rio Caister en­cheu o porto com lodo, de maneira que a cidade é somente um pântano de juncos. O mar fica a cerca de dez quilômetros de distância.

Há três razões lógicas para João escrever primeiro para a igreja de Éfeso. a) Ela era a principal igreja na Ásia e estava situada na principal cidade da província, b) Ela era a cidade mais próxima de Patmos, a cerca de 100 quilômetros. Ela seria a primeira cidade a ser alcançada pelo mensageiro que levava essas cartas, c) Ela era a igreja-mãe de João. Nesse domingo pela manhã, o idoso apóstolo estava indubitavelmente pensando acerca das necessidades e problemas dessa igreja, bem como das outras seis igrejas que podem ter estado sob a sua jurisdição.

2.  Autor (2.16)

O Autor divino dessas sete cartas é Jesus Cristo. No início de cada epístola, após a saudação, Ele é descrito de uma maneira singular e que se ajusta à mensagem dessa carta. Cada vez o Autor é apresentado com as palavras: Isto diz. Então segue a descri­ção do Senhor glorificado. Swete diz o seguinte a respeito dessa fórmula introdutória: “Ela é seguida em cada caso por uma descrição de um Locutor, em que Ele é caracteriza­do por um ou mais dos aspectos da visão do capítulo 1 [...] ou por um ou mais dos seus títulos [...] os aspectos ou títulos escolhidos parecem corresponder com as circunstâncias da igreja a que a carta está sendo dirigida”. Mas, ele também observa: “Para a Igreja de Éfeso, a mãe das igrejas da Ásia, o Senhor escreve debaixo de títulos que expressam sua relação com as igrejas em geral”.

Nesse versículo, Ele é descrito da seguinte maneira: aquele que tem na sua des­tra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro. Isso nos leva de volta à descrição de Cristo em 1.12-20. Embora os castiçais (candelabros) sejam clara­mente identificados por Jesus como que simbolizando as igrejas, a interpretação das estrelas como “anjos” é explicada de maneira variada (veja comentários azul acima). Deve­mos confessar que temos uma forte afinidade com o ponto de vista apresentado por Richardson. Depois de identificar os “anjos” como mensageiros e sete como que signifi­cando “totalidade”, ele diz: “Todos os verdadeiros ministros de todas as igrejas estão nas mãos de Cristo [...] À medida que Cristo se move no meio das igrejas, Ele segura os ministros nas suas mãos”. Se essa interpretação pode ser aceita, ela fornece grande consolo ao pastor sobrecarregado.

3.      Aprovação (2.2-3, 6)

Deus nunca está desatento ao que fazemos por Ele. Jesus diz à igreja de Éfeso: Eu sei (2). Sempre é um conforto lembrar que nosso Senhor nos conhece corretamente.

A igreja de Éfeso é primeiramente elogiada por suas obras. Encontramos isso nova­mente em 2.19; 3.1,8,15. Trabalho (kopos) é um termo forte. Barclay diz que ele descre­ve “trabalho até suar; trabalho até ficar exausto; o tipo de labuta que suga toda a energia e mente que um homem possui”.

Paciência dificilmente é uma tradução adequada para a palavra grega aqui, que significa “persistência imperturbável”. Barclay comenta: “Hupomone não é a paciência inflexível que resignadamente aceita as coisas, e que curva sua cabeça quando preocupações aparecem. Hupomone é a bravura corajosa que aceita sofrimento, privação e perda e os transforma em graça e glória”.

Smith faz uma observação interessante acerca desses três termos usados aqui. Ele escreve: “Fé, esperança e amor lamentavelmente estão faltando aqui. Contraste essa igreja com a de Tessalonicenses: Éfeso tinha obras, mas não obras de fé; trabalho, mas não trabalho de amor; paciência, mas não paciência de amor” (1 Ts 1.3). Ele então torna essa declaração significativa: “Não é demais dizer que uma igreja pode ter todas essas virtudes mencionadas e mesmo assim estar destituída de vida espiritual”. Poderíamos acrescentar o seguinte: e o mesmo vale para cada indivíduo.

A igreja de Éfeso não era apenas diligente, mas também cautelosa em termos de disciplina: ela não podia sofrer (“suportar”, ARA; “tolerar”, NVI) os maus. Diferente­mente de Corinto, ela não tolerava o pecado dentro da igreja. Ela havia colocado à prova os que dizem ser apóstolos e o não são e os havia achado mentirosos. A íntima conexão dessas cláusulas sugere que os maus devem ser identificados com os falsos após­tolos. Swete explica quem eram essas pessoas: “Os falsos mestres afirmavam ser apostoloi num sentido mais amplo, mestres itinerantes com uma missão que os colocava num nível mais elevado do que os anciãos locais” (cf. 1 Co 12.28; Ef 4.11).

Esses apóstolos itinerantes se tornaram um verdadeiro problema na Igreja Primi­tiva. Evidentemente, era requerido que levassem “cartas de recomendação” de alguma igreja estabelecida (2 Co 3.1). Em sua primeira epístola, João adverte: “provai [testai] se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4.1). O Didaquê, escrita em meados do segundo século, relata como esses itinerantes deveriam ser testados: “E cada apóstolo que vem a vocês, que seja recebido como o Se­nhor; mas ele não deverá permanecer mais do que um dia; se, no entanto, for necessário, que fique mais um dia; mas se permanecer três dias, ele é falso profeta”. Em outras palavras, ele não deve se aproveitar da hospitalidade da igreja.

No melhor manuscrito grego, tens paciência (3) vem antes de sofreste, que está conectado com pelo meu nome; ou seja: “Vocês têm pacientemente sofrido por causa do meu nome”. E trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste no grego significa sim­plesmente: “e vocês não têm desfalecido”. Os cristãos de Éfeso eram obreiros incansáveis.

Acerca da descrição da igreja em Éfeso, Ramsay escreve: “O melhor comentário dis­so é encontrado na carta de Inácio aos Efésios [...] As características que ele elogia na Igreja de Éfeso são as mesmas que São João menciona [...] ‘Devo ser treinado para a disputa convosco na fé, na admoestação, na perseverança e na longanimidade’ (v. 3): ‘porque todos vós viveis de acordo com a verdade e nenhuma heresia tem se alojado no meio de vós’ (v. 6)”.

A igreja em Éfeso é também aprovada porque aborrece as obras dos nicolaítas (6). Não se sabe ao certo quem eram essas pessoas (Eles são mencionados novamente no v. 15). Irineu (cerca de 180 d.C.) diz que eles foram estabelecidos por Nicolau de Antioquia, mencionado em Atos 6.5. Mas Clemente de Alexandria questiona isso. Depois de discutir as várias teorias, Swete conclui: “Como um todo parece melhor aceitar a suposição de que um partido levando esse nome existia na Ásia quando o Apocalipse foi escrito, quer devesse sua origem a Nicolau de Antioquia, que não é improvável [...] ou a algum outro falso mestre com esse nome”.

Na expressão as quais eu também aborreço, Swete faz esta observação pertinen­te: “Aborrecer obras más [...] é uma verdadeira contrapartida do amor ao bem e ambos são divinos”.

4.      Censura (2.4)

O grande Cabeça da Igreja viu apenas uma coisa errada na congregação em Éfeso. Embora essa congregação fosse ortodoxa, perseverante e zelosa, ela carecia do amor. Sem isso, tudo o mais era em vão.

A tradução da KJV minimiza a seriedade da acusação ao inserir em itálico a pala­vra somewhat (depois substituída por something, que quer dizer “algo” ou “alguma coisa”). Isso distorce a afirmação do original. O grego diz: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (cf. ARA). Isso não era um insignificante “alguma coisa”. O texto seguinte mostra que a situação era uma completa tragédia, requerendo um remédio drástico.

Muitas vezes é dito que a igreja de Éfeso tinha “perdido” seu primeiro amor. Mas, não é isso que o texto diz. Lemos: que deixaste [o teu primeiro amor], O verbo é aphiemi, que significa “deixar ir, mandar embora, desistir, abandonar”. Tudo isso sugere uma negligência voluntária. E por isso que se exigiu o arrependimento. Pecados de omissão podem ser tão fatais em suas consequências quanto que pecados de ação.

O que era essa primeira caridade que a igreja de Éfeso havia deixado? Quase todos os comentaristas concordam que a palavra primeira precisa ser interpretada cro­nologicamente: esse era o amor da igreja primitiva em Éfeso, especialmente durante os dias do ministério de Paulo ali (cf. At 19.20; 20.37). A tentativa de alguns de interpretá-la qualitativamente como que significando “amor de primeira classe” não parece encon­trar apoio adequado na palavra grega usada aqui.  É verdade que ela pode significar “principal” ou “superior”. Mas a ideia é de prioridade e não de qualidade.

O termo caridade (ou “amor”) é interpretado pela maioria como significando “amor fraternal”. Os Pais gregos da Igreja Primitiva acreditavam que a referência era à falta de cuidado pelos irmãos pobres. Outros associam essa passagem a Jeremias 2.2, em que Deus acusa Israel de ter esquecido “do teu amor quando noiva”. Isto é, os Efésios haviam deixado o seu amor por Cristo. A melhor proposta é a posição inclusiva de Charles R. Erdman: “Esse era o amor por Cristo e o amor pelos companheiros cristãos. Os dois aspectos são inseparáveis”.

Inevitavelmente aparece uma pergunta: Porventura, o zelo da igreja de Éfeso na sua defesa pela ortodoxia contribuiu para a perda do amor? Isso é bem provável. Ao defender a verdade e disciplinar membros instáveis, é fácil desenvolver um espírito se­vero e crítico que acaba destruindo o amor. E, com frequência, quando o calor do amor divino desaparece, as pessoas tornam-se mais zelosas na luta por doutrinas e padrões ortodoxos. Esse é um perigo contra o qual todos devem vigiar.

5.      Exortação (2.5)

O primeiro passo de volta para Deus é: Lembra-te (5). Lembra-te dos dias pas­sados de bênção espiritual. Essa igreja tinha caído, não meramente tropeçado. Ela estava abatida. Esse era o caso do filho pródigo, de um modo geral. Mas ele lembrou-se (Lc 15.17) e voltou.

De que maneira essa igreja poderia se levantar outra vez? A resposta é: arrepende-te. Isso significa “mude sua mente”. Então pratica as primeiras obras; isto é, creia e obedeça. Hebreus 6.1 fala do “fundamento do arrependimento [...] e de fé em Deus”. Essa é evidentemente a combinação aqui. Swete ressalta que lembra-te, arrepende-te e pratica “obedecem aos três está­gios na história da conversão”.

Se a igreja de Éfeso rejeitasse ou falhasse em se arrepender e praticar as primei­ras obras, Jesus advertiu: brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres. Isto é, a igreja de Éfeso deixaria de existir como congregação cristã. Isso finalmente ocorreu em uma época posterior, mas a advertên­cia foi evidentemente anunciada naquela época. Cerca de 20 anos mais tarde Inácio escreveu aos Efésios: “Dei as boas-vindas à sua igreja que se tornou tão estimada entre nós por causa da sua natureza honesta, marcada pela fé em Jesus Cristo, nosso Salva­dor, e pelo amor a Ele”.

A igreja teria uma oportunidade justificada de se arrepender. Swete observa que a palavra grega para tirarei pode ser entendida como indicando “ponderação e calma judi­cial; não haveria um extermínio em um momento de raiva, mas um movimento que acaba­ria na perda do lugar que a Igreja tinha sido chamada a cumprir; a não ser que houvesse uma mudança para melhor, as primeiras sete lâmpadas da Ásia desapareceriam”.

6.      Convite (2.7a)

A exortação Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas ocorre em cada uma das sete cartas. Nas três primeiras, a exortação precede a promessa ao vence­dor. Nas últimas quatro, a exortação vem após a promessa. Veja também 13.9.

Esse é um eco das palavras de Jesus nos evangelhos, quando ele diz: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça” (Mt 11.15; 13.9, 43; Mc 4.9, 23; Lc 8.8; 14.35).

7.      Recompensa (2.7b)

Em cada carta há uma promessa para aquele que vence. O verbo ocorre frequentemente no livro de Apocalipse, cujo tema principal é a Igreja, por meio de Cristo, vencendo todo mal. Swete diz que o termo indica “ ‘o vencedor’, o membro vitorioso da Igreja, como tal, à parte de todas as circunstâncias”.

A promessa aqui para o vencedor é que ele terá o direito de comer da árvore da vida. Adão falhou quando testado e perdeu esse direito. Agora esse direito é prometido àqueles que serão fiéis diante da tentação. Swete comenta: “Comer da árvore é desfrutar de tudo o que a vida futura tem a oferecer para a humanidade redimida”.

A palavra paraíso obviamente nos leva de volta ao Éden, onde a árvore da vida é mencionada primeiramente como estando “no meio do jardim” (Gn 2.9). Agora lemos que ela está no meio do paraíso de Deus. Acerca do significado desse termo Swete observa: “O ‘Paraíso’ do N.T. ou é o estado dos mortos abençoados (Lc 23.43) ou uma esfera supramundana identificada com o terceiro céu para o qual as pessoas chegam em um êxtase (2 Co 12.2ss); ou, como aqui, a alegria final dos santos na presença de Deus e de Cristo”.

Na mensagem para Éfeso vemos: 1) A insuficiência das obras (vv. 2,3); 2) A necessi­dade do amor (v. 4); 3) A natureza do arrependimento (v. 5).

CARTA À IGREJA DE ESMIRNA, 2.8-11

1.      Destino (2.8a)

Esmirna concorria com Éfeso pela honra de ser chamada “a principal cidade da Ásia” e a “metrópole”. Assim, ela logicamente vem em segundo lugar na lista aqui. A cidade, chamada “a Beleza da Ásia”, estava situada na ponta do bem protegido golfo, com um excelente porto. Ela se aproximava de Éfeso no que tange ao volume do comércio de exportação. Ela continua sendo uma grande cidade, a única das sete que atualmente é próspera. Hoje, “os figos de Esmirna” são vendidos em todo o mundo.

A igreja lá foi aparentemente fundada quando Paulo estava pregando em Éfeso (At 19.10). Ela continuou sendo um forte centro eclesiástico por vários séculos. A Izmir (Veja Aqui) moderna tem uma população de cerca de trezentos mil habitantes.

2.      Autor (2.8b)

Cristo é aqui identificado como o Primeiro e o Último. Já encontramos essa expressão em 1.17. Ele então é descrito como Aquele que foi morto e reviveu, ou “que esteve morto e tornou a viver” (ARA). Isso também lembra 1.18: “fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre”. A referência claramente é à crucificação e ressurreição de Cristo.

Mas essas palavras tinham uma relevância peculiar na carta à igreja de Esmirna. Porque essa cidade havia morrido e tornou a viver. Strabo diz que os lídios destruíram o lugar e por cerca quatrocentos anos não houve cidade ali, apenas algumas vilas espalha­das. Ramsay observa: “Todos os leitores de Esmirna certamente seriam sensibilizados à impressionante analogia com a história primitiva de sua própria cidade”.

3.      Aprovação (2.9)

Mais uma vez Cristo diz: Eu sei. Essas palavras descrevem tanto conforto quanto advertência.

A palavra obras não está no melhor manuscrito grego. Duas coisas são mencio­nadas: tribulação e pobreza. Aparentemente, tribulação gerou pobreza (cf. v. 10). Hebreus 10.34 diz: “Porque também vos compadecestes dos que estavam nas prisões e com gozo permitistes a espoliação dos vossos bens, sabendo que, em vós mesmos, tendes nos céus uma possessão melhor e permanente”. Em uma situação semelhante em Esmirna, parece que bandos judeus e pagãos estavam saqueando a propriedade dos cristãos.

A palavra grega para tribulação (thlipsis) é forte, significando “pressionado” ou “espremido”. Tribulação vem do latim tribulum, que significa uma debulhadora, usada para debulhar os grãos. Assim, temos duas figuras. A palavra grega sugere a figura de um lagar, no qual o suco das uvas era espremido. A palavra latina transmite a figura do grão sendo batido com uma vara, para tirar os grãos da casca. Juntos, eles sugerem a natureza da tribulação. É uma questão de pressão e golpes.

Embora exteriormente a igreja em Esmirna fosse caracterizada pela pobreza, ela era, na verdade, rica. Materialmente pobre, espiritualmente rica — essa combinação é observada mais de uma vez no Novo Testamento.

Jesus também conhecia a blasfêmia dos que se dizem judeus e não o são. Paulo escreveu aos Romanos: “Porque não é judeu o que o é exteriormente [...] Mas é judeu o que o é no interior” (Rm 2.28-29). Esses perseguidores em Esmirna eram judeus por raça e religião, mas não eram verdadeiros filhos de Abraão. Que os judeus perseguiram os cristãos é amplamente evidenciado no livro de Atos, bem como nos escritos do segundo século de Justino, o Mártir, e Tertuliano. Os judeus odiavam de uma maneira especial os convertidos do judaísmo ao cristianismo. Ao se opor ao evangelho, eles com frequência recorriam à blasfêmia (cf. At 13.45). A palavra grega blasphemia significava “difama­ção” quando dirigida aos homens, mas blasfêmia quando dirigida a Deus. Aqui prova­velmente significava as duas coisas.

A história do martírio de Policarpo em Esmirna é especialmente relevante. Os ju­deus chegaram a superar os pagãos em seu ódio e zelo. Eles acusaram Policarpo de hostilizar a religião do estado. Esses inimigos, “com uma ira incontrolável gritavam em alta voz: ‘Esse é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o demolidor dos nossos deuses, que ensina a muitos que não se deve sacrificar nem adorar’ ”. Embora fosse num sábado, eles juntaram madeira para queimar Policarpo vivo.

À luz dessa atitude hostil não é de surpreender que os judeus sejam chamados de a sinagoga de Satanás. Por causa da oposição dos judeus, os cristãos evitaram o uso da palavra sinagogue e preferiram ecclesia (gr., assembleia) para suas congregações. O úni­co texto no Novo Testamento em que sinagogue é usado para identificar uma assembleia cristã se encontra em Tiago 2.2. Isso pode ter sido escrito antes que a perseguição judai­ca aos cristãos se tornasse generalizada.

É uma coincidência interessante que a expressão sinagoga de Satanás ocorra so­mente aqui e na carta à igreja de Filadélfia. Essas são as duas únicas cartas sem uma palavra de censura. Assim, na mensagem a essa igreja passamos diretamente da apro­vação para a exortação.

4.      Exortação (2.10)

A igreja em Esmirna é admoestada: Nada temas das coisas que hás de pade­cer. Coisas piores aguardavam essa congregação: Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados. Isso mostra que os judeus se uniriam às autoridades pagãs na perseguição. Ambos seriam instigados pelo diabo. Era ele que, em última análise, lançava os cristãos na prisão. Tentados significa “testados”. O verbo grego era usado para testar metais no fogo, para certificar-se de que não apre­sentavam impurezas. Da mesma maneira, as almas dos crentes seriam testadas na fornalha da aflição.

A tribulação (perseguição) duraria dez dias. Essa expressão indica um breve perí­odo (cf. Dn 1.12,14). Swete comenta: “O número dez provavelmente é escolhido porque, embora seja suficiente para sugerir a continuidade do sofrimento, ele aponta para um final que está se aproximando”. Deus cuidaria para que não sofressem acima do que poderiam suportar. Se fossem fiéis até à morte — provavelmente uma alusão ao martí­rio — receberiam a coroa da vida. A palavra grega para coroa não é diadema, signifi­cando coroa real, mas stephanos, a coroa do vitorioso. Apropriadamente, Estêvão (gr., Stephanos), o primeiro mártir cristão, tinha esse nome. Provavelmente, a frase coroa da vida significa que a coroa é vida eterna (genitivo epexegético).

5.      Convite (2.11a)

Aqui novamente encontramos a exortação-convite: Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. A mensagem de advertência era necessária não só para os crentes em Esmirna, mas para todos os cristãos em todos os lugares.

6.      Recompensa (2.116)

A promessa para o vencedor aqui, como no caso de todas as sete cartas, é apropriada para a mensagem visando a uma igreja em particular. Mesmo se esses fiéis de Esmirna tivessem de sofrer morte física por causa de Cristo, eles nunca seriam feridos pela se­gunda morte — isto é, a morte espiritual. Essa expressão impressionante ocorre nova­mente em 20.6,14 e 21.8, onde ela é identificada como o lago de fogo, o lugar do castigo eterno. A frase também é encontrada nos Targuns judaicos (paráfrases aramaicas do Hebraico do AT). Não receberá o dano é negativo duplo no grego: “de modo nenhum”.

Tem sido sugerido (Pulpit Bible) que essa carta transmite “Palavras de Regozijo de um Salvador Reinante para uma Igreja Sofredora”: 1) Um Salvador vivo acima de todos (v. 8); 2) Um Salvador vivo conhecendo tudo (v. 9a); 3) Um Salvador vivo avaliando a todos: tu és rico; 4) um Salvador vivo antevendo tudo (v. 10); 5) Um Salvador vivo limi­tando tudo: dez dias; 6) Um Salvador vivo encorajando a todos (v. 10a); 7) Um Salvador prometendo vida no fim de tudo (v. 10b).

CARTA À IGREJA DE PÉRGAMO, 2.12-17

1. Destinatário (2.12a)

Esmirna ficava a cerca de 55 quilômetros de distância de Éfeso. A rota adiante é descrita por Swete: “Depois de deixar Esmirna, a estrada de Éfeso seguia a costa por cerca de 65 quilômetros e então subia em direção ao nordeste para o vale de Caicus, por mais 25 quilômetros, onde ficava a cidade de Pérgamo”.

A localização física de Pérgamo era notória. Ramsay escreve: “Mais do que qual­quer outro lugar na Ásia Menor, essa cidade dá ao viajante a impressão de uma cidade majestosa, o lar da autoridade; o monte rochoso no qual se localiza é enorme e domina a imensa planície do Caicus de maneira orgulhosa e ousada”. Charles diz: “A cidade mais antiga foi construída num monte, a 350 metros de altura, que se tornou o lugar da acrópole e de muitas das principais construções da cidade posterior”.

No início do século terceiro a.C., foi fundado o reino de Pérgamo. Em 133 a.C., o rei Atalus III deixou seu reino para os romanos. Eles o transformaram na província da Ásia. Ramsay diz: “Pérgamo era a capital oficial da província por dois séculos e meio: a tal ponto que a sua história como a base de autoridade suprema sobre um imenso país durou cerca de quatro séculos e não havia chegado ao fim quando as sete cartas foram escritas”.

2.      Autor (2.12b)

Dessa vez Cristo é descrito como aquele que tem a espada aguda de dois fios (cf. 1.16). A razão dessa referência à espada é vista claramente em 1.16. Ela deve ser o instrumento de julgamento contra os hereges na igreja de Pérgamo.

Há também uma outra razão para essa identificação do autor. Ramsay observa: “Na avaliação romana a espada era o símbolo da ordem mais elevada de autoridade oficial com a qual o pro cônsul da Ásia era investido. O ‘direito da espada’ [...] podia ser equiva­lente ao que chamamos hoje de poder sobre a vida e a morte”.

3.      Aprovação  (2.13)

Mais uma vez (cf. v. 9) tuas obras não se encontra no melhor texto grego, que traz: “Eu sei onde habitas”. Lá ficava o trono de Satanás. A palavra grega para trono é thronos.

Por que Pérgamo é chamado de lugar do trono de Satanás? A resposta é que era o centro de adoração ao imperador da Ásia. Ramsay escreve: “O primeiro (e por um tempo considerável o único) templo provincial do culto imperial na Ásia foi construído em Pérgamo em honra a Roma e Augusto (provavelmente 29 a.C.). Um segundo templo foi construído ali em honra a Trajano e um terceiro em honra a Severo. Assim, Pérgamo, foi a primeira cidade a ter a honra de ser a guardiã do templo uma ou duas vezes na religião do Estado; e mesmo a terceira vez como guardiã do templo ocorreu alguns anos antes do que a vez de Éfeso”. Assim, aqui Satanás representa “o poder e a autoridade oficial que está em oposição com a Igreja”.

R. H. Charles resume bem a situação. Ele diz: “Atrás da cidade no primeiro século d.C. ergueu-se um enorme monte cuneiforme, com 350 metros de altura, coberto de tem­plos e altares pagãos, que, em contraste com o “monte de Deus”, de acordo com Isaías 14.13 e Ezequiel 28.14,16 e chamado de “o trono de Deus” em 1 Enoque 25.3, apareceu ao vidente como o trono de Satanás, uma vez que era o lugar de muitos cultos idólatras, mas acima de todo o culto imperial, que ameaçava com aniquilação a própria existência da Igreja. Recusar-se a participar desse culto constituía uma séria traição ao Estado”.

O segundo item na aprovação ou louvor da igreja em Pérgamo é: e reténs o meu nome e não negaste a minha fé. Quando as autoridades romanas exigiram que os cristãos proclamassem: “César é Senhor”, eles respondiam: “Jesus é Senhor” (cf. 1 Co 12.3). Eles permaneceram firmes, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemu­nha (martys, “meu fiel mártir”, KJV). No segundo século, martys (genitivo, martyros) recebeu o significado técnico de “mártir”. Há uma discussão em torno do significado des­sa palavra nesse texto. Alguns entendem que martys deveria ser traduzido por mártir, ao passo que outros entendem que ela deveria significar testemunha. De qualquer for­ma, essa testemunha foi morta. Apesar das lendas, nada se sabe ao certo a respeito de Antipas além do que é informado nessa passagem.

O qual foi morto entre vós não indica necessariamente que Antipas era um mem­bro da igreja de Pérgamo. Ramsay diz que “muitos mártires foram levados a juízo e conde­nados ali que não eram de Pérgamo. Prisioneiros eram trazidos de todas as partes da província de Pérgamo para julgamento e condenação diante da autoridade que possuía o direito da espada [...] o poder da vida e da morte, a saber, o pro cônsul romano da Ásia”.

4.      Censura (2.14,15)

O Cabeça da Igreja tem algumas coisas contra a congregação de Pérgamo. A primei­ra é: tens lá os que seguem a doutrina de Balaão (14). Como em todo o Novo Testa­mento, doutrina (didache) deveria ser traduzida por “ensinamento”.

Balaão é descrito como aquele que ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prosti­tuíssem. Essa declaração preenche um pequeno hiato no relato do Antigo Testamento. Lá lemos que Balaão foi chamado por Balaque, rei de Moabe, para amaldiçoar os israelitas, a quem temia (Nm 22.1—24.25). Quando Deus não permitiu que o profeta amaldiçoasse seu povo, evidentemente Balaão sugeriu uma maneira indireta de trazer a maldição divina sobre Israel. Isso é indicado em Números 21.16, em que Moisés disse às mulheres de Moabe: “Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, deram ocasião aos filhos de Israel de prevaricar contra o SENHOR, no negócio de Peor, pelo que houve aquela praga entre a congregação do SENHOR”. O “negócio de Peor” era uma combinação de idolatria e imoralidade (Nm 25.1-9), como podemos ler em Apocalipse. O que o relato deixa mais claro aqui é o fato de Balaão ter aconselhado Balaque a fazer com que suas mulheres seduzissem os homens israelitas nesses dois pecados. O esquema funcionou bem demais. Balaão também é mencionado em 2 Pedro 2.15 e Judas 11.

A palavra grega para tropeços (scandalon; cf. escândalo) foi primeiramente usada para a isca de uma armadilha e, em seguida, para a própria armadilha. Isso se encaixa perfeitamente na figura aqui. Balaque preparou uma armadilha para os israelitas e eles foram apanhados nela. Swete comenta: “As mulheres de Moabe foram deliberadamente lançadas no caminho dos homens israelitas, que não suspeitavam de nada, na esperança de causar a ruína deles”. Lenski traduziu a expressão aqui: “lançar uma armadilha diante dos filhos de Israel”.

Pelo que tudo indica, havia alguns membros na igreja em Pérgamo que procuraram convencer os membros a aceitar os costumes pagãos para evitar perseguição. Eles defen­deram a ideia de comer nos templos pagãos e participar na adoração aos ídolos, o que incluía prostituir-se com as “virgens” do templo. É possível que tenham dito que o que alguém faz com o corpo não afeta a sua alma. O fato de comer carne sacrificada aos ídolos já tinha se tornado um problema em Corinto, onde Paulo tratou disso (1 Co 8). Essa era uma questão vital no primeiro século.

Como em Éfeso, havia em Pérgamo alguns nicolaítas (15). Em relação à sua dou­trina (ensinamento). Smith acredita que nicolaítas significa “aliciadores dos leigos” e que a descrição de Pérgamo prefigura o surgimento da hierarquia papal na igreja católica romana.

5.      Exortação (2.16)

Os cristãos de Pérgamo, como também os de Éfeso, são ordenados a arrepender-se. O arrependimento era a única coisa que poderia evitar o julgamento severo — quando não, em breve virei a ti e contra eles bata­lharei com a espada da minha boca. Swete escreve: “O Cristo glorificado nesse livro é um Guerreiro, que batalha com a espada afiada da palavra” (cf. 1.16; 19.13-16).

A situação em Pérgamo era pior do que em Éfeso. Jesus disse o seguinte à igreja de Éfeso: “que aborreces as obras dos nicolaítas” (v. 6). Para Pérgamo Ele escreveu: “tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu aborreço”. A mudança de “aborreces” para “tens” e de “obras” para “doutrinas” provavelmente é significativa. Ago­ra os nicolaítas estavam dentro da igreja e seus ensinamentos destrutivos estavam sen­do aceitos por alguns. Se a igreja não se arrepender imediatamente (aoristo), Cristo virá (lit.: “Eu estou vindo”, presente profético) em breve para o julgamento. Não havia tem­po para perder. Batalharei (futuro) literalmente significa: “promoverá guerra”. Esses nicolaítas eram os inimigos de Cristo e do cristianismo. Tanto Lenski quanto Charles entendem que os seguidores de Balaão e os nicolaítas constituíam o mesmo grupo.

6.      Convite (2.17a)

Joseph Seiss apresenta um tratamento tríplice em relação ao texto: Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. 1) “Uma repreensão solene àqueles que se chamam de cristãos, mas raramente, ou nunca, abrem a sua Bíblia para estudá-la”; 2) “Tudo que diz respeito à salvação depende de profunda atenção à palavra divina e o uso diligente dos nossos privilégios, de ouvir, assinalar, aprender e digerir interiormente o que ela contém”; 3) “Todos têm a capacidade de prestar atenção e, assim, cabe a cada um usar essa capacidade”.

7.      Recompensa (2.17b)

Alguns dos crentes professos de Pérgamo evidentemente estavam celebrando nos templos pagãos. Mas aos vencedores fiéis, Cristo promete que irão comer do maná escondido. A alusão parece referir-se ao vaso de ouro de maná na arca no antigo Tabernáculo (Êx 16.33; Hb 9.4). Havia uma tradição entre os judeus de que a arca foi escondida por Jeremias na caverna do monte Sinai, onde não seria descoberta “até que Deus reunisse novamente as pessoas e mostrasse a sua misericórdia” (2 Macabeus 2.7).

Charles acredita que o texto aqui se refere ao maná celestial descrito pelos rabis como sendo moído para os justos. Ele diz: “De acordo com 2 Baruque 29.8, o tesouro do maná deveria descer do céu durante o Reino Messiânico, e os bem-aventurados deveriam comer dele”. Ele também escreve: “O ‘maná escondido’ provavelmente sig­nifica os dons espirituais diretos que a Igreja triunfante receberá em uma medida excelente da comunhão íntima com Cristo”. Mas, será que esse maná escondido não significa também “comunhão íntima com Cristo” no presente, alimentando nos­sas almas do Pão da Vida?

Ao vencedor também se promete uma pedra branca. O que essa expressão signifi­ca? Charles alista cinco interpretações que têm sido sugeridas: “1) A pedra branca usada pelos jurados, significando absolvição... 2) Apsephos que permitia àquele que a recebia um acolhimento livre [...] [nas] assembleias reais [...] Portanto, ela era considerada um bilhete de admissão para a festa celestial. 3) As pedras preciosas que, de acordo com a tradição rabínica, caíam junto com o maná... 4) As pedras preciosas no peitoral do sumo sacerdote levando os nomes das Doze Tribos. 5) A pedra branca era considerada um símbolo da felicidade”.

Charles não acha qualquer uma dessas explicações satisfatória: “Ou apsephos não é branca ou não tem nenhuma inscrição nela”. Ele busca analisar o pano de fundo das superstições populares daquela época.

Incluído no problema está o significado do novo nome inscrito na pedra. Swete faz a sugestão útil de que a referência pode ser às “pedras gravadas que eram empre­gadas para propósitos mágicos e traziam nomes místicos”. Atos 19.19 indica que a magia era comum na cidade de Éfeso. Swete acrescenta: “A mágica divina, que grava na vida e no caráter humano o Nome de Deus e de Cristo, é colocado em contraste com as imitações baratas que fascinavam a sociedade pagã”. Em 3.12, Jesus diz para o vencedor da igreja de Filadélfia: “E escreverei sobre ele o nome do meu Deus”.

Ramsay acha que a pedra significa o aspecto imperecível do nome. Ele escreve: “O nome que foi escrito na pedra branca se tornava imediatamente o nome do cristão vitorioso e o nome de Deus [...] Pérgamo e Filadélfia são as duas igrejas elogiadas. Delas se diz respectivamente: ‘reténs o meu nome’ e: ‘não negaste o meu nome’; e elas são recompensa­das com o novo nome, que é ao mesmo tempo o nome de Deus e o seu próprio nome, uma possessão eterna, conhecida somente por aqueles que o possuíam [...] eles não serão mera­mente ‘cristãos’, o povo de Cristo; eles serão o povo da sua nova personalidade como Ele é revelado daqui por diante em glória, levando esse novo nome da sua gloriosa revelação”.

A palavra grega para novo não é neos, que significa “recente” em origem, mas kainos, que significa “fresco” em qualidade. “O ‘nome’ cristão, i.e., o caráter da vida interior que o evangelho inspira, possui a propriedade da eterna juventude, nunca perdendo seu po­der e sua alegria”.

CARTA À IGREJA DE TIATIRA, 2.18-29

1.      Destinatário (2.18a)

Cerca de 65 quilômetros a sudeste de Pérgamo ficava Tiatira. Era uma cidade da Lídia, perto da fronteira com a Mísia. Construída por Seleuco I, fundador da dinastia dos Selêucidas, ela foi povoada pelos veteranos das campanhas de Alexan­dre, o Grande, na Ásia. Em torno de 190 a.C., Tiatira foi tomada pelos romanos. Embora tivesse um centro comercial próspero, era muito inferior ao de Éfeso, Esmirna, e Pérgamo. Charles observa: “A carta mais longa foi dirigida à cidade menos importante das Sete Cidades”. Evidentemente, havia judeus ali, porque Atos 16.14 menciona “Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus”. Parece que na época ela era uma prosélita convertida ao judaísmo.

A igreja em Tiatira evidentemente era pequena. Fala-se que ela desapareceu no fim do segundo século.

2.      Autor (2.18b)

O autor dessa carta se identifica como o Filho de Deus, uma frase encontrada somente aqui no livro de Apocalipse. Jesus reivindicou esse título durante o seu tempo aqui na terra (Mt 11.27; Lc 10.22) e aprovou Pedro por professá-lo (Mt 16.16,17). Foi por causa dessa afirmação que Jesus foi condenado pelo Sinédrio (Mt 26.63; Jo 19.7).

Cristo é descrito como Aquele que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao latão reluzente. Encontramos aqui um eco de 1.14,15. A adequação da caracterização dupla é expressa da seguinte forma por Swete: “Essa menção dos olhos que flamejam com indignação justa e os pés que podem pisotear os inimigos da verdade prepara o leitor para o tom severo da declaração que se segue”. Erdman se expressa de forma ainda mais sucinta: “Assim, ele é capaz de penetrar nos segredos de todos os corações e ele tem poder para castigar e subjugar”. Esses olhos flamejantes penetram e descobrem todo engano da hipocrisia. Nas Escrituras, o latão frequentemente é o símbo­lo do julgamento.

3.      Aprovação (2.19)

As palavras desse versículo na KJV obviamente estão incorretas, porque apresen­tam uma lista começando e terminando com tuas obras — uma repetição sem significa­do. Além disso, o melhor texto grego traz fé antes de serviço. A RSV apresenta uma tradução correta: “Conheço as suas obras, o seu amor, a sua fé, o seu serviço e a sua perseverança, e que suas últimas obras excedem as primeiras”. A New English Bible traz: “Vocês agora estão fazendo ainda melhor do que no princípio”.

Cristo tinha elogiado a igreja de Éfeso pelas suas obras. Mas a igreja de Tiatira estava um passo à frente. Ela é cumprimentada pela sua caridade. A palavra grega é ágape e sempre deveria ser traduzida por “amor”. Caridade representa os caritas da Vulgata latina, a Bíblia oficial da igreja católica romana. Hoje, caridade significa um espírito de tolerân­cia ou dar aos necessitados. Ágape é um termo muito mais rico do que isso. As pessoas do mundo também podem ser filantrópicas ou tolerantes. Mas ágape é o amor divino implan­tado no coração humano e que flui em um serviço abnegado e sacrificial aos outros.

A palavra grega pistis pode significar ou fé ou “fidelidade” (NEB). Não se sabe exatamente qual das duas palavras se tem em mente aqui. Talvez a melhor saída é permitir os dois significados (cf. Phillips, “lealdade”).

Serviço é diakonia. Beyer diz que essa palavra significa “qualquer ‘realização de serviço’ feito com amor genuíno”. Lenski define diakonia como “serviço voluntário para o benefício e a ajuda daqueles que precisam dele e realizado liberalmente”.

Paciência (hypomone) significa mais do que o suportar passivo de privações ou provações. Essa palavra significa, na verdade, uma constância ou persistência (“perse­verança”, NASB) positiva.

Devido à prolongada censura que se segue, é surpreendente que uma aprovação tão entusiástica é dada a essa igreja. Swete comenta: “É digno de observação que nessas cartas às igrejas o elogio é apresentado com mais liberalidade, se é que pode ser feito com justiça, quando segue a censura; diz-se mais acerca das boas obras das igrejas de Éfeso e Tiatira, do que das igrejas de Esmirna e Filadélfia, em que não se encontra falta alguma”. Essa característica está de acordo com a psicologia sadia, que aconselha a dizer tudo que é positivo antes de se chamar a atenção das faltas da outra pessoa.

4.      Censura (2.20-23)

A primeira parte do versículo 20 deveria ser traduzida da seguinte forma: “No en­tanto, contra você tenho isto: que você tolera a mulher Jezabel” (RSV, NASB). A tole­rância do mal era o pecado constante da igreja de Tiatira. Jezabel é provavelmente um nome simbólico — “Essa mulher, Jezabel”. A referência é obviamente à esposa de Aca­be, que seduziu os israelitas a adorar Baal (1 Rs 16.31). Também são mencionados suas “prostituições” e “feitiçarias” (2 Rs 9.22). Uma vez que alguns manuscritos e versões antigas trazem “tua mulher Jezabel” (i.e., “tua esposa Jezabel”), Grotius (século dezessete) sugere que o autor fala da esposa do bispo de Tiatira. Mas essa noção é hoje quase uni­versalmente rejeitada. Duesterdieck diz que se tem “uma mulher específica em mente; não a esposa de um bispo, nem uma mulher que é, de fato, chamada Jezabel, mas uma determinada mulher que diante da ambição de ser uma profetisa tinha aprovado as doutrinas dos nicolaítas e por esse motivo foi escolhida a nova Jezabel”. Isso provavelmente representa a opinião da maioria hoje.

Não era incomum ter uma profetisa na Igreja Primitiva (cf. At 21.9). No Antigo Testamento, diversas mulheres recebem esse título (e.g., Miriã, Débora, Hulda). O único lugar no Novo Testamento em que prophetis (fem.) ocorre é Lucas 2.36 (Ana).

A falsa profetisa de Tiatira estava sendo tolerada para que ensine e engane os meus servos, para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria. Es­sas duas coisas são atribuídas aos seguidores de Balaão (e nicolaítas?) em Pérgamo (v. 14).

Tiatira era conhecida pelas suas inúmeras associações comerciais. Isso gerava um problema especial. Charles escreve: “Agora, visto que a participação de alguma dessas associações [...] não significava essencialmente nada além de participar de uma refeição em comum, que era dedicada indubitavelmente a algum deus pagão, mas que era exatamente por isso sem sentido para o cristão iluminado; beneficiar-se desse tipo de participação era considerado em certos círculos liberais algo bastante justificável.

Por razões comerciais ou sociais, parecia quase imperativo pertencer a alguma asso­ciação. Mas, acredita-se que essas reuniões comerciais frequentemente acabavam em orgias e bebedeiras. Por isso, a referência à prostituição. Essa profetisa estava defen­dendo uma atitude moral e religiosamente liberal.

Evidentemente, uma advertência peremptória foi dada a essa Jezabel, mas ela ti­nha se recusado a se arrepender (v. 21), i.e., mudar sua opinião e caminhos. Portanto, o Senhor deve lidar com ela severamente. Por causa da sua prostituição Ele a colocaria numa cama (22). Essa expressão é somente uma de muitas, que mostram a tendência de João, que, embora escrevesse em grego, pensava em formas hebraicas. Referente a essa frase, Charles escreve: “Se a traduzirmos literalmente para o hebraico, descobriremos que temos aqui uma expressão idiomática hebraica [...] ‘ficar preso à cama’, ‘ficar doente’ (Êx 21.18): consequentemente, ‘colocar numa cama’ significa ‘colocar num leito de enfermidade”.

E sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, deve provavelmente ser entendido como um paralelismo hebraico. Adulteraram provavelmente significa adul­tério espiritual. Mas a porta da misericórdia continua aberta — se não se arrepende­rem das suas obras. Arrependimento genuíno sempre coloca o julgamento de lado.

Recusa contínua de se arrepender resulta em mais castigo severo: E ferirei de morte a seus filhos (23). Provavelmente, seus filhos significa: “sua descendência espi­ritual, como distintos daqueles que foram enganados por um tempo”. Ferirei de mor­te é um hebraísmo típico. Ele significa “matar” (ARA, NVI).

Essa seria uma advertência para todas as igrejas. Elas saberão que eu sou aquele que sonda as mentes e os corações (cf. Jr 11.20; 17.10). Mentes (palavra grega somente encontrada aqui no NT) literalmente significa “os rins”; isto é, “os movimentos da vontade e afeições”. Corações na psicologia hebraica referia-se especialmente aos pensamentos. O olhar do Onisciente penetra até o mais profundo do intelecto, emoções e vontade do homem.

O julgamento divino sempre é justo. Cada um receberá segundo as suas obras (cf. Rm 2.6).

5.      Exortação (2.24,25)

Há uma palavra de conforto aos restantes que estão em Tiatira (24) — talvez a maior parte dos membros — e que não aceitaram a doutrina (ensinamento) de Jezabel, e não conheceram [...] as profundezas de Satanás. Para os gnósticos do segundo século, a expressão “as coisas profundas” era uma frase favorita. Eles reivindicavam um conhecimento esotérico que era desconhecido pelas pessoas não iniciadas.

Duas interpretações têm sido apresentadas acerca das profundezas de Satanás. Uma é que os nicolaítas escarneciam do restante dos cristãos como aqueles que não conheciam as coisas profundas de Deus; mas essas, na verdade, se referiam às coisas profundas de Satanás. A outra diz que os seguidores de Jezabel, na realidade, se vanglo­riavam em conhecer as profundezas de Satanás. “Esses falsos mestres entendiam que o homem espiritual deveria conhecer as coisas profundas de Satanás e que ele deve­ria tomar parte da vida pagã da comunidade. Duas das características mais salientes dessa vida pagã eram suas festas sacrificiais e suas práticas imorais.” Muitos gnósticos de épocas posteriores afirmavam que, visto que toda a matéria é má e somente o espírito é bom, não importa o que alguém faça com o seu corpo; sua alma continua pura. As duas interpretações acima podem ser aplicadas às doutrinas de mestres imorais de Tiatira.

Como dizem significa “como as chamam”. Paulo falou dos mistérios profundos da verdade divina (cf. Rm 11.33; Ef 3.18). Esses falsos mestres estavam distorcendo essa ideia.

Para aqueles que permaneceram leais à fé, Cristo declarou: outra carga vos não porei. Provavelmente, isso esteja relacionado com o versículo 25: Mas o que tendes, retende-o até que eu venha. Charles interpreta isso assim: “Definitivamente, domi­nem (kratesate) com firmeza as tarefas incumbidas a vocês, e afastem-se completamente das festas sacrificiais dos pagãos e das perversidades morais que praticam”. Ele acha que outra carga se refere aos decretos apostólicos de Atos 15.28. Mas muitos comenta­ristas questionam isso. Parece duvidoso que esses decretos ainda seriam mencionados numa época bem posterior.

6.      Recompensa (2.26-28)

À frase recorrente ao que vencer (26) é acrescentado aqui: e guardar até ao fim as minhas obras. Swete observa: “Em Tiatira, a batalha precisava ser vencida pela adesão resoluta às ‘obras de Cristo’, i.e., à pureza da vida cristã, em oposição às ‘obras de Jezabel’ ”?

A recompensa prometida é: eu lhe darei poder (exousia, autoridade) sobre as nações. O Cristo glorificado compartilhará a sua autoridade com seus seguidores fiéis. A linguagem dessa cláusula e o que segue no versículo seguinte são tirados de Salmos 2.8-9, que era interpretado como um salmo messiânico pelos judeus do século I a.C., de acordo com Salmos de Salomão (uma obra apócrifa).

A palavra regerá (27) literalmente significa “pastorear”. Assim, a vara de ferro se refere ao cajado do pastor, com a ponta de ferro para torná-la uma arma adequada con­tra os inimigos ou animais selvagens. Os ímpios são comparados com vasos de oleiro que serão quebrados. Embora essas palavras possam ter alguma aplicação à influência da Igreja no mundo atual, é óbvio que o seu cumprimento final aguarda o retorno de Cristo. Como também recebi de meu Pai é um eco de Salmos 2.7 e Atos 2.33.

Na declaração dar-lhe-ei a estrela da manhã (28), há uma expectativa de 22.16: “Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a resplandecente Estrela da manhã”. A maior recom­pensa que qualquer cristão vitorioso pode receber é o próprio Cristo. Sua presença será o céu em sua glória mais elevada.

7.      Convite (2.29)

Nas três últimas cartas, esse convite precedeu a promessa ao vencedor. Nessa e nas três cartas seguintes ela segue a promessa.

Alguém sugeriu (Pulpit Commentary) que essa carta revela “A Ira do Cordeiro”: 1) Sua realidade (v. 18); 2) Sua severidade (vv. 22-23); 3) Sua omissão (v. 21); 4) Sua justiça (v. 20); 5) Sua discriminação (vv. 24-25).

CARTA À IGREJA DE SARDES, 3.1-6

1.      Destinatário (3.1a)

Continuando rumo ao sudeste de Tiatira, o mensageiro teria de viajar cerca de 50 quilômetros até Sardes, a antiga capital da Lídia. Ela era famosa pela sua fabricação de lã e afirmava ter sido a primeira cidade a descobrir a arte de tingir lã.

Sardes havia alcançado seu ápice de prosperidade sob o rico rei Croesus (ca. 560 a.C.). Conquistada por Ciro, ela permaneceu desconhecida durante o governo persa. No período romano, houve uma certa medida de restauração. Mas Charles diz que mesmo então “nenhuma cidade na Ásia apresentou um contraste mais deplorável entre o esplendor passado e o declínio inquietantemente atual”. Por esse motivo Ramsay chama Sardes de “a cidade da morte”. Ele escreve: “Assim, quando as Sete Cartas foram escritas, Sardes era uma cidade do passado, que não tinha futuro”. Hoje existe uma pequena vila, chamada Sart.

O principal culto em Sardes era a depravada adoração de Cibele (ou Ártemis). Charles diz: “Seus habitantes tinham se destacado pela luxúria e libertinagem”. Isso dificultou a manutenção dos padrões cristãos de pureza.

2.      Autor (3.1b)

Aqui Cristo é identificado como o que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas (cf. 2.1). Com sete Espíritos de Deus evidentemente se quer dizer o Espírito Santo e sua perfeição e sua obra por meio das sete igrejas, que representam a Igreja universal de Jesus Cristo. As sete estrelas representam os mensageiros (pastores) das sete igrejas (cf. 1.20).

3.      Censura (3.1c, 2b)

A expressão Eu sei ocorre no início de cada uma das sete cartas (2.2, 9,13,19; 3.1,8,15). Nada está escondido aos olhos do Cristo onisciente. Uma vez que Ele conhece perfeitamente, Ele é capaz de julgar com justiça.

Seria difícil imaginar uma censura mais avassaladora: tens nome de que vives e estás morto. Essa cidade arrasada não estava apenas morta, mas a igreja também estava morta. Ela tinha perdido sua vida espiritual. Smith comenta: “Sardes evidente­mente era conhecida como uma ‘igreja viva’ — em que havia muita atividade, mas Aque­le que não olha para a aparência exterior, mas vê o coração declara: Tu[...]estás morto”.

Erdman leva esse pensamento um passo adiante: “Provavelmente, seus cultos eram bem frequentados e conduzidos de maneira correta. Podem ter havido comitês e aniver­sários e reuniões. No seu rol de membros podem ter havido líderes sociais notáveis. No entanto, ela estava morta”.

A igreja tinha obras, mas essas obras não eram perfeitas diante de Deus (2). Erdman comenta: “Ela não conquistou nada no reino espiritual: almas não estão sendo salvas; santos não são fortalecidos; ajuda não está sendo oferecida aos necessitados; seus cultos são formais, sem vida e sem sentido: ‘Não achei as tuas obras aperfeiçoadas diante do meu Deus’ ”

A palavra para perfeitas literalmente significa “suficientes” ou “cheias”. Swete faz a seguinte sábia observação: “‘Obras’ são ‘cheias’ somente quando são avivadas pelo Es­pírito de vida”. Precisamente, é isso que faz a diferença entre uma igreja morta e uma igreja viva. Uma sente a falta do Espírito Santo; a outra está cheia e capacitada pelo Espírito. Não será o número de atividades ou a organização eficiente que tirará o lugar da dinâmica poderosa do Espírito Santo.

4.      Exortação (3.2a, 3)

Sê vigilante (2) é literalmente: “Esteja continuamente vigilante”. Vigilante é o particípio presente do verbo gregoreo, que significa “esteja acordado” ou “vigie”. Jesus usou essa palavra duas vezes no discurso do monte das Oliveiras (Mc 13.35, 37), reque­rendo vigilância constante na preparação para sua segunda vinda.

A igreja de Sardes foi advertida da seguinte maneira: confirma o restante que estava para morrer. No meio dessa igreja morta havia alguns elementos de vida. Mas mesmo esses estão prestes a morrer — literalmente: “estavam prestes [verbo no imper­feito] a morrer”. Swete comenta: “O imperfeito olha para trás do ponto de vista do leitor da época quando a visão foi recebida e, ao mesmo tempo, com um otimismo sensível ele expressa a convicção do escritor de que o pior logo teria passado”. Isto é, os cristãos em Sardes podiam dizer: “Essas coisas estavam prestes a morrer; mas não vamos permitir que isso aconteça”.

Ramsay destaca em pormenores o significado da ordem à igreja de Sardes de ser vigilante. A cidade tinha sido capturada duas vezes pelo inimigo por causa da falta de vigilância da parte do seu povo. A primeira vez foi quando o rico Croesus era rei. Ramsay descreve a situação da seguinte maneira:

O descuido e a falta de manter uma vigilância eficiente, decorrentes da confi­ança excessiva na evidente resistência da fortaleza foram as causas desse desastre, que arruinou a dinastia e causou o fim do império da Lídia e o domínio de Sardes. Os muros e portões eram extremamente fortes. A colina na qual a cidade alta havia sido erguida era íngreme e imponente. O único acesso à cidade alta era cuidadosa­mente fortificado para não oferecer chance alguma a um invasor. Mas havia um ponto fraco: em um lugar era possível que um inimigo ágil subisse a parede perpen­dicular da montanha imponente, se os defensores fossem negligentes e permitis­sem que ele a escalasse de maneira desimpedida.

Isso ocorreu em 549 a.C. Mas em 218 a.C. voltou a acontecer. Ramsay escreve:

Mais de três séculos depois, um outro caso semelhante ocorreu. Archaeus e Antíoco, o Grande, estavam lutando pelo domínio de Lídia e todo o império selêucida. Antíoco venceu seu rival em Sardes, e a cidade foi capturada novamen­te por uma surpresa do mesmo tipo: um mercenário de Creta mostrou o caminho, escalando a colina e entrando na fortaleza sem ser observado. A lição dos dias antigos não tinha sido aprendida; a experiência havia sido esquecida; os homens foram desatentos e negligentes; e quando veio o momento da necessidade, Sardes estava despreparada.

O significado dessa lição para os cristãos é óbvio. Precisamos ter apenas um ponto fraco em nosso caráter, um lugar desprotegido em nossa vida espiritual, para ser vítima da astuta estratégia de Satanás. Continua sendo verdade que a “vigilância eterna é o preço da segurança”.

A admoestação à igreja de Sardes continua: Lembra-te, pois, do que tens rece­bido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te (3). Há uma mudança frequente do tem­po no grego que é difícil de reproduzir na tradução simples em português. Literalmen­te seria o seguinte: “Continue lembrando [presente], pois, como você [singular] tem recebido [e continua possuindo; perfeito] e ouviu [aoristo], e continue guardando [pre­sente], e arrependa-se [agora mesmo; aoristo]”. Lenski observa: “O arrependimento imediato e verdadeiro é o único remédio para a morte que se estabeleceu ou quase se estabeleceu”. Esse arrependimento sempre quando lembramos da Palavra de Deus que temos recebido e ouvido.

Swete mostra bem a força dos tempos nesse versículo: “O aoristo [ouvido] volta para o momento em que a fé veio pelo ouvir (Rm 10.17) [...]; o perfeito [tens recebido] chama a atenção à responsabilidade permanente da confiança então recebida [...] ‘guar­de aquilo que recebeu e imediatamente volte-se da sua negligência passada’ ”

Os versículos 2,3 sugerem “Cinco Passos para um Avivamento”: 1) Sê vigilante; 2) Confirma o restante que estava para morrer; 3) Lembra-te; 4) Guarda-o; 5) Arrepende-te.

Mais uma advertência é anunciada: se não vigiares, virei sobre ti como um la­drão, e não saberás a que hora sobre ti virei. Esse é um claro eco de Mateus 24.42-44. Repetidas vezes somos advertidos de que Cristo virá num momento inesperado.

5.      Aprovação (3.4)

Mesmo na igreja morta em Sardes havia um remanescente fiel — algumas pesso­as. Deissmann diz que a palavra grega (onoma) aqui tem “o significado de pessoa”. Ela é usada dessa forma na Septuaginta em Números 1.2,20; 3.40,43, em que provavelmen­te traz o pensamento adicional de “pessoas reconhecidas pelo nome”. Alguns estudiosos sentem que aqui a palavra significa “algumas pessoas cujos nomes estavam no rol de membros da igreja”.

Os fiéis não contaminaram suas vestes. Moffatt comenta: “A linguagem reflete registros de cumprimento de votos na Ásia Menor, onde roupas manchadas desqualificavam o adorador e desonravam o deus. A pureza moral nos qualifica para a comunhão espiritual”. Ir à presença de Deus com nossos pensamentos e sentimentos manchados com egoísmo é desonrá-lo. As vestes da nossa personalidade devem ser mantidas puras se desejamos ter comunhão com Deus.

Para aqueles que mantiveram sua pureza, a promessa é a seguinte: comigo anda­rão de branco. A última palavra está no plural no grego, indicando “roupas brancas”.

Uma vez que mantiveram suas vestes limpas eles serão para sempre vestidos de bran­co, símbolo da santidade divina ou da justiça de Cristo. Aqueles que permaneceram brancos são dignos dessa honra.

6.      Recompensa (3.5)

A promessa ao vencedor em Sardes se encaixa com o que acabou de ser dito: O que vencer será vestido de vestes brancas. No melhor texto grego aparece a palavra “assim”. O texto deveria ser traduzido da seguinte forma: “O que vencer, será assim vestido de vestes brancas” (referindo-se ao versículo anterior). Charles diz: “Essas ves­tes são os corpos espirituais com as quais o fiel será vestido na ressurreição”. Ele encontra apoio para isso em 2 Coríntios 5.1,4 e na literatura intertestamentária. Swete dá a essa expressão uma conotação mais ampla: “Nas Escrituras, vestuário branco denota a) festividade... b) vitória... c) pureza... d) o estado celestial”. Ele acrescenta: “Todas essas associações convergem aqui: a promessa é de uma vida livre de contami­nação, radiante de alegria celestial, coroada com vitória final”. Essa parece ser a ex­plicação mais adequada.

Aquele que vencer, que permanece firme até o fim da vida, recebe a promessa: de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida. É isso que as palavras de Jesus querem dizer em Mateus 10.22: “aquele que perseverar até ao fim será salvo”; isto é, eternamente. Esse nome não só permanecerá seguro no registro celestial, mas Jesus promete: confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Cristo não se envergonhará em reconhecer aqueles que Lhe pertencem. A linguagem aqui lembra Mateus 10.32: “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus”.

7.      Convite (3.6)

Essa frase recorrente ressalta a responsabilidade do ouvir. Essas cartas eram lidas em voz alta nas igrejas.

CARTA À IGREJA DE FILADÉLFIA, 3.7-13

Destinatário (3.7a)

Essa cidade distava de Sardes pouco menos de 50 quilômetros a sudeste. Ela recebeu o nome do seu fundador, Atalus II (Philadelphus), que reinou de 159 a 138 a.C. Muitas vezes sacudida por terremotos, ela foi destruída em 17 d.C., junto com Sardes e dez outras cidades no vale de Lídia. O medo fez com que grande parte da popu­lação deixasse de morar no interior dos seus muros. Aparentemente, tanto a cidade quanto a igreja eram pequenas nessa época.

A adoração principal era a Dionísio (mais tarde chamado de Baco). Mas a carta indica que a principal oposição veio dos judeus e não dos pagãos.

Quando os turcos conquistaram a Ásia Menor na Idade Média, Filadélfia suportou o ataque por muito mais tempo do que outras cidades. Ramsay diz: “Ela exibia todas as qualidades nobres de perseverança, verdade e constância que são atribuídas a ela na carta de João”. Hoje há uma cidade relativamente grande lá, com uma estação ferroviária.

2.      Autor (3.7b)

Cristo se descreve como o que é santo — literalmente, “o Santo”, um nome para a divindade. Ele também é o que é verdadeiro, “o Verdadeiro”. A palavra grega para verdadeiro (alethinos) significa “verdadeiro, no sentido de real, ideal, genuíno”. Bultmann diz: “Em relação às coisas divinas ela tem o sentido daquilo que verdadeira­mente é, ou daquilo que é eterno”. Comentando a respeito desse título duplo de Jesus, Swete escreve: “O Cabeça da Igreja é descrito ao mesmo tempo como santidade absoluta [...] e como verdade absoluta; Ele é tudo aquilo que afirma ser, cumprindo os ideais que prega e as esperanças que inspira”. Charles entende que, no Apocalipse, não temos o sentido clássico do grego alethinos (“genuíno”) como acontece no Evangelho de João. Em vez disso, é a ênfase hebraica na fidelidade de Deus. Ele diz: “Por isso, alethinos sugere que Deus ou Cristo, como verdadeiro, cumprirá a sua palavra”.

Jesus então se descreve como o que tem a chave de Davi, o que abre, e nin­guém fecha, e fecha, e ninguém abre. Essas palavras são citadas de Isaías 22.22. Ali o Senhor fala de Eliaquim, servo fiel de Ezequias: “E porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro, e abrirá, e ninguém fechará, e fechará, e ninguém abrirá”. A chave é o símbolo de autoridade. Charles observa que a expressão a chave de Davi “evidente­mente tem um significado messiânico [...] As palavras ensinam que a Cristo pertence completa autoridade com respeito à admissão ou exclusão da cidade de Davi, a nova Jerusalém”. Mas já em 1.18, Jesus tinha declarado que Ele tinha as chaves da morte e do Hades. Assim, Ele exercita autoridade no céu, na terra, e mesmo no reino dos mortos.

3.      Aprovação (3.8-10)

A igreja de Filadélfia, Cristo disse: eis que diante de ti pus uma porta aberta (8) – literalmente: “uma porta que foi aberta e permanece aberta”. A figura de uma porta aberta era familiar para os cristãos do primeiro século. Os missionários pioneiros, Paulo e Barnabé, relataram em Antioquia que Deus “abrira aos gentios a porta da fé” (At 14.27). Em relação à sua obra em Éfeso, Paulo escreveu: “porque uma porta grande e eficaz se me abriu” (1 Co 16.9). Pouco mais tarde, ele diz: “quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo [...] abrindo sê-me uma porta no Senhor” (2 Co 2.12). Ele pediu aos colossenses a orarem “para que Deus nos abra a porta da palavra” em Roma (Cl 4.3). Essas passagens das epístolas de Paulo parecem indicar o que significa uma porta aberta. Ela significa uma boa oportunidade para a obra missionária.

Ramsay denomina Filadélfia “a igreja missionária”. Ele diz o seguinte dessa cidade:

A intenção dos seus fundadores era torná-la um centro da civilização greco-asiática e um meio de espalhar a língua grega e seus costumes na parte oriental da Lídia e da Frigia. Ela era uma cidade missionária desde o seu princípio [...] O seu ensinamento foi bem-sucedido. Antes de 19 d.C., a língua nativa tinha deixado de ser falada na Lídia e a língua grega era a única falada nesse país.

Mas agora a igreja de Filadélfia foi chamada para um tipo de obra missionária mui­to mais importante, que é a de espalhar o evangelho de Jesus Cristo. Para essa tarefa, ela estava num lugar apropriado. A estrada do esplêndido porto de Esmirna passava por Filadélfia. Além do mais, “a estrada imperial do correio de Roma até as províncias mais ao leste” passava por Trôade, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Filadélfia. “Ao longo dessa grande rota a nova influência estava constantemente se movendo para o leste da Fila­délfia, na forte corrente de comunicação que saía de Roma, passava pela Frigia e ia em direção ao Oriente distante [...] Filadélfia, portanto, era a guardiã do portão para o planalto; mas a porta tinha agora sido permanentemente aberta diante da Igreja, e a obra de Filadélfia era passar por ela e levar o evangelho para as cidades da Frigia”.

A igreja em Filadélfia se torna um símbolo da grande iniciativa de missões mundi­ais, a próxima etapa na história do cristianismo depois da Reforma Protestante. Nos primeiros 150 anos depois do início de missões modernas protagonizado por William Carey em 1792, provavelmente mais obras missionárias foram desenvolvidas do que nos 1500 anos anteriores.

Acerca dessa porta aberta Jesus disse: ninguém a pode fechar. A “chave de Davi” (v. 7) tinha destrancado a porta, e nenhum humano ou força demoníaca poderia fechá-la. Nunca antes, em 1900 anos de história cristã, o desafio da porta aberta de missões mundiais foi maior do que agora.

Parece surpreendente ler: tendo pouca força. Evidentemente, a igreja de Filadél­fia era pequena e talvez seus membros fossem na maioria da classe mais pobre. A decla­ração guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome deveria ser traduzida da seguinte forma: “E mesmo assim guardaste a Minha palavra e não negaste o meu nome”. Evidentemente, a congregação tinha passado por um tempo de provação, mas permaneceu firme.

A frase a sinagoga de Satanás (9) já tinha aparecido em 2.9, na carta a Esmirna. Nessas duas cidades a oposição à igreja veio principalmente dos judeus. Mas eles não são verdadeiros judeus, porque não seguem os passos do Pai Abraão, nem guardam o espírito da lei de Moisés.

Desses falsos judeus o Senhor diz: eis que eu farei que venham, e adorem pros­trados a teus pés, e saibam que eu te amo. Isso parece indicar que alguns judeus seriam convertidos ao cristianismo. Essa interpretação é fortalecida pela primeira frase do versículo: eu farei aos da sinagoga de Satanás. O grego traz: “eu darei da sinago­ga de Satanás [não eu farei]”. Alguns seriam salvos.

Confirmação indireta disso é encontrada na carta de Inácio aos cristãos em Filadél­fia (ca. 120 d.C.), na qual ele os adverte para não darem ouvidos aos judaizantes. Eviden­temente, os judeus se tornaram influentes na congregação de Filadélfia.

Cristo elogiou a igreja porque ela tinha guardado a palavra da minha paciência (10), ou “resistência”. Erdman diz que essa frase dá a impressão de significar: “A prega­ção dessa imutável resistência com a qual no meio de privações Cristo deve ser servi­do”. Mas é minha paciência. Trench está certo quando comenta: “Muito melhor, no entanto, é entender todo o evangelho como ‘a palavra da paciência de Cristo’, ensinando em toda parte, como está ocorrendo, a necessidade de uma espera paciente por Cristo, até que Ele, o esperado por tanto tempo, finalmente apareça”. Lenski vai mais longe e sugere que a frase deveria ser traduzida da seguinte forma: “a Palavra que trata da resistência do Senhor”. Talvez esses dois pensamentos deveriam ser combinados: é a resistência paciente de Cristo como um exemplo para permanecermos constantes.

Uma vez que a igreja em Filadélfia tinha guardado essa palavra de Cristo, Ele, por sua vez, a guardará da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo (terra habitada), para tentar os que habitam na terra. O substantivo grego para tenta­ção é peirasmos, e o verbo grego para tentar é peirazo. A conexão óbvia no grego também aparece na versão em português (o mesmo não ocorre na KJV). O verbo signi­fica “testar, colocar à prova”. Uma tradução correta seria “provação [...] prova” (NVI) ou “teste [...] testa” (NASB).

O alcance mundial dessa prova mostra que a referência principal é ao período da chamada Grande Tribulação no tempo da Segunda Vinda. Mas há talvez uma aplicação secundária às perseguições romanas ao cristianismo, que se estendiam pela terra então conhecida — o Império Romano.

Tem havido uma discussão considerável se te guardarei da hora da tentação significa isenção do tempo da provação ou ser guardado nesse tempo. A palavra da no grego não é apo, “para longe de”, mas ek, que significa “fora de”. À luz disso, Carpenter escreve: “A promessa não significa ficar guardado longe da tribulação, mas ser guardado no meio dela” — da mesma forma que a cabeça de alguém é “mantida acima da água”. Swete escreve: “Para a igreja de Filadélfia a promessa era uma garantia de proteção em qualquer prova que lhe pudesse sobrevir”. Também é uma promessa para nós de que o nosso Senhor nos manterá em segurança em qualquer época de teste.

4.  Exortação (3.11)

Na carta para Filadélfia, como na carta para Esmirna, não há palavra de censura. Assim, passamos imediatamente para a exortação.

Ela começa com uma promessa misturada com advertência: Eis que venho sem demora. O significado principal de sem demora (cf. 22.20) é que o Senhor não atrasa­rá a sua vinda além do tempo fixado. Mas, uma vez que não sabemos quando isso acon­tecerá, devemos estar constantemente preparados. Além disso, para o Senhor mil anos são como um dia (2 Pe 3.8). Assim, dois mil anos ainda seriam sem demora.

A conexão próxima desse versículo com o anterior sugere que a vinda de Cristo vai livrar os seus da hora da tribulação. Alguns têm sugerido que, da mesma forma que os israelitas tiveram de tomar parte das três primeiras pragas (sangue, sapos, piolhos) com os egípcios (Êx 8.22), assim a Igreja poderá passar pela primeira parte da Grande Tribu­lação antes de ser levada por Cristo.

A igreja de Filadélfia é admoestada: guarda o que tens. Swete sabiamente obser­va: “A promessa de proteção (v. 10) traz consigo a responsabilidade de um esforço contí­nuo”. Coroa significa a “coroa da vitória”. A advertência é contra fracassar na corrida da vida e, consequentemente, perder o direito à coroa da vida. Ou seja: “toma cuidado para que ninguém tome a tua coroa”. Esse objetivo é alcançado ao correr com sucesso até o fim.

5. Recompensa (3.12)

Para o vitorioso será erguida uma coluna no templo do meu Deus. Swete comen­ta: “Há uma dupla propriedade nessa metáfora: enquanto a coluna dá estabilidade à construção que se apoia sobre ela, ela mesma está firme e permanentemente estabelecida; e esse lado do conceito frequentemente vem à tona [...] e é preeminente aqui”.

Uma vez que ele esteja estabelecido, dele [do templo] nunca sairá. Quando o período da provação chegar ao fim e o vencedor tiver se tornado uma coluna no templo eterno de Deus, não haverá mais possibilidades de cair. O caráter dos santos glorificados será firmado para sempre.

A respeito do vencedor, Cristo disse que escreveria três nomes: o nome do meu Deus [...] o nome da cidade do meu Deus[...] e também o meu novo nome. O nome de Deus, significando sua posse, era colocado sobre os israelitas; porque logo após a bela bênção sumo sacerdotal (Nm 6.24-26), é acrescentada: “Assim, porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei” (Nm 6.27). A nova Jerusalém é descrita em mais detalhes nos capítulos 21—22. Aqui há apenas uma referência de passagem acerca dela.

O que significa o meu novo nome? Trench diz que é esse “nome misterioso e, na necessidade das coisas, não comunicado e, para o tempo presente, incomunicável, que, nessa mesma visão mais sublime, é mencionado como: ‘e tinha um nome escrito que ninguém sabia, senão ele mesmo’ (19.12) [...] Mas o mistério desse novo nome, que nenhum homem é capaz de descobrir, que nessa condição presente ele não é capaz de receber, será dado aos santos e cidadãos da nova Jerusalém. Eles conhece­rão como são conhecidos (1 Co 13.12)”. Swete sugere que o novo nome de Cristo é “um símbolo para a glória mais completa de sua Pessoa e Caráter que aguardam revelação na sua Vinda”.

Três pensamentos se destacam nessa “Promessa ao Vencedor”: 1) Consagração com­pleta a Deus — o nome do meu Deus; 2) Cidadania intransferível na cidade celestial — o nome da cidade do meu Deus; 3) Conhecimento mais completo de Cristo na Segunda Vinda — meu novo nome.

6. Convite (3.13)

Ouça significa “preste atenção”. É o que queremos comunicar quando dizemos: “Ago­ra, escute-me”.

CARTA À IGREJA DE LAODICÉIA, 3.14-22

1.Destinatário (3.14a)

A KJV traduz aqui: “à igreja dos Laodicenses”. Essa tradução tem provocado uma série de comentários e interpretações. Mas ela praticamente não tem apoio dos manus­critos gregos. A tradução correta é: “à igreja que está em Laodicéia”. Ela é similar em forma com os destinatários das outras igrejas.

Laodicéia distava cerca de 60 quilômetros a sudeste de Filadélfia. Ela se localizava junto ao rio Licos, 10 quilômetros ao sul de Hierápolis e 16 quilômetros a oeste de Colossos. Fundada por Antíoco II (267-246 a.C.), essa cidade foi chamada de Laodicéia em homenagem à sua esposa, Laodice. Visto que estava localizada na junção de três estradas importantes, tornou-se uma grande cidade comercial e administrativa. O fato de ser um centro financeiro, a tornou tão próspera que foi capaz de reconstruir-se depois do grande terremoto em 60 d.C. sem o subsídio imperial. Ela também era conhecida pela fabricação de roupas e tapetes de uma lã preta, brilhante e macia. Laodicéia também era famosa por causa da sua renomada escola de medicina.

A igreja de Laodicéia já existia quando Paulo estava preso em Roma. Ele escreveu uma carta a ela (cf. Cl 4.16) que evidentemente se perdeu.

A cidade foi conquistada pelos turcos. No lugar existe hoje uma série de ruínas, ainda não escavadas.

2. Autor (3.14b)

Jesus aqui se identifica como o Amém. Isso pode ser um eco de Isaías 65.16, em que encontramos no hebraico: “o Deus do Amém” (ou “o Deus da verdade”). A palavra foi traduzida do hebraico para o grego e, tempos depois, para o inglês e outras línguas mo­dernas. Hoje, entre os cristãos de todos os países e línguas ouvimos o mesmo “Amém!”.

Provavelmente há uma conexão próxima entre o uso frequente desse termo por Je­sus como está relatado nos Evangelhos. Essa palavra aparece 51 vezes nos Sinóticos e 50 vezes no Evangelho de João. Ela é traduzida como “na verdade” (sempre duplo em João) na frase: “Na verdade vos digo”.

O autor mais adiante se descreve como a testemunha fiel e verdadeira. Isso provavelmente é sinônimo de o Amém, que é colocado aqui “porque essa é a última das sete epístolas, para que possa confirmar o todo”.

O terceiro item na descrição é: o princípio da criação de Deus. Mestres heréticos têm se aproveitado dessa frase como prova de que Cristo não era eterno. Mas em Colossenses, em que Ele é designado “o primogênito de toda a criação” (1.15), é mencio­nado logo em seguida: “porque nele foram criadas todas as coisas [...] E ele é antes de todas as coisas” (1.16-17). Além disso, em seu Evangelho, João diz acerca do Logos: “To­das as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). A frase aqui deve ser interpretada à luz dessas outras passagens. Ela significa “a origem (ou ‘fonte original’) da criação de Deus”.

3. Aprovação (3.15-17)

No caso da igreja de Laodicéia não há palavras de aprovação ou recomendação. É um fato impressionante que não se diga nada aqui acerca dos nicolaítas ou qualquer outro grupo herético. Pelo que tudo indica, a igreja era ortodoxa. Mas era uma ortodoxia morta. O que estava errado com a igreja de Laodicéia não era um problema da cabeça, mas um problema do coração. Isso era muito mais sério.

A essa igreja o Senhor disse: Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente. Tomara que foras frio ou quente (15). A palavra grega para frio (psychros) é usada somente nos versículos 15-16 e em Mateus 10.42 — “um copo de água fria”. Quente é zestos (somente nos vv. 15-16 no NT). Essa palavra significa “quente a ponto de ferver”, assim frio aqui provavelmente significa “frio a ponto de congelar”. A igreja não era nem friamente indiferente nem fervorosa no espírito (cf. Rm 12.11).

A reação do Cabeça da Igreja é expressa com palavras fortes: Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca (16). Alguns ali­mentos são gostosos somente quando estão frios, outros somente quando estão quentes. Alguns alimentos são gostosos tanto frios quanto quentes. A maioria das pessoas gosta de suco gelado e café ou chá quente; mas quem gosta de uma bebida morna? As palavras gregas para morno e vomitar (esta é emeo, no grego) são encontradas somente aqui no Novo Testamento.

A pior coisa a respeito da condição dessa igreja era sua auto complacência: Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta (17). A igreja evidente­mente refletia o comportamento da comunidade. Enriqueci­do significa literalmente: “acumulei riquezas” (mesma raiz de rico na frase anterior); em outras palavras: “Obtive minha riqueza com meu próprio esforço”. A primeira frase expressa autossatisfação; a segunda, orgulho.

Não existe um exemplo mais triste de orgulho insensível do que o que é exibido na declaração: de nada tenho falta. Que contraste com a humildade realista expressa nas palavras do hino “Preciso de Ti a toda hora”. Esse é o verdadeiro espírito cristão de dependência.

A avaliação de Cristo acerca dessa igreja era bem diferente da avaliação que essa igreja fez dela mesma. Ele disse: e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. O grego é consideravelmente mais vivido: “e não sabes que thou (enfático no gr. — tu que tens te vangloriado) és o desgraçado, e desprezível, e pobre, e cego e nu”. Desgraçado é encontrado somente aqui e em Romanos 7.24 (no texto grego): “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”. Miserável ocorre somente aqui e em 1 Coríntios 15.19: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.

Swete resume o restante do versículo da seguinte forma: “Os três adjetivos se­guintes relatam os motivos para a comiseração; um pedinte cego [...] escassamente vestido (cf. Jo 21.7) não era mais merecedor de compaixão do que essa igreja rica e presunçosa”. Pobre [...] cego [...] nu devem ser entendidos metaforicamente, des­crevendo a condição espiritual da igreja. No entanto, pode haver uma alusão indireta aos recursos ostentosos da cidade onde estavam localizados. A igreja era pobre em um centro financeiro opulento, cego em uma comunidade que tinha uma excelente escola de medicina, e nu em um lugar famoso pela fabricação de roupas feitas de uma lã de alta qualidade. É possível que a Igreja dos nossos dias prospere exterior­mente no meio de prosperidade material, e mesmo assim seja pobre, cega e espiritualmente nu.

4. Exortação (3.18-20)

A essa igreja opulenta, que “não tinha falta de nada”, Jesus disse: aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças (18). O termo compres é um eco de Isaías 55.1: “vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite”. Essa é a única maneira de com­prarmos de Deus. De mim é enfático. Essas coisas necessárias podem ser adquiri­das somente de Cristo.

Provado no fogo ou “refinado no fogo”, isto é, purificado pelo fogo. A mesma forma verbal ocorre na Septuaginta em Salmos 18.30 — “a palavra do Senhor é provada”. Em Provérbios 30.5, lemos “pura” — “Toda palavra de Deus é pura”. Assim, aqui significa que esse ouro é puro e genuíno.

Além disso, a igreja precisava de vestes brancas, para que te vistas, e não apa­reça a vergonha da tua nudez. A roupa branca e pura estava em contraste com a lã preta, pela qual Laodicéia era famosa.

Em terceiro lugar, Jesus aconselhou a igreja para que unjas os olhos com colírio, para que vejas. Acerca desse remédio, Charles diz: “Em nosso texto refere-se ao famoso pó da Frigia usado pela escola de medicina de Laodicéia”.

Não se deve deixar de notar que as três partes do versículo 18 correspondem aos últimos três adjetivos do versículo 17: “pobre”, “nu”, “cego”. A igreja de Laodicéia achava que não precisava de nada. Na verdade, ela sentia falta das necessidades mais básicas da vida espiritual.

Nesse versículo, vemos “O que é o Evangelho”: 1) Riqueza divina para nossa pobreza espiritual; 2) Veste branca de justiça para nossa pecaminosidade; 3) Visão espiritual para nossa cegueira.

A exortação continua: Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê, pois, zeloso e arrepende-te (19). O castigo é um sinal do cuidado amoroso de Deus como nosso Pai celestial (cf. Hb 12.5-11). É interessante que o verbo amo aqui não é o costu­meiro agapao, mas phileo, que introduz um toque meigo e sentimental — para a igreja que menos o merecia! Repreendo é “declarar culpado”. Castigo é literalmente “educar uma criança”. Tudo isso mostra a compaixão de Cristo em lidar com essa igreja como uma criança geniosa que precisava do amor e disciplina do Pai. Swete observa: “Talvez a condição deplorável da igreja de Laodicéia era devida à falta de correção; não há nenhu­ma palavra de quaisquer provas até aqui sofridas por essa igreja”.

Essa igreja tinha falta de “tempero” (veja comentários acerca de “quente”, v. 15). Ela carecia de zelo. Assim, o Senhor disse: sê, pois, zeloso (imperativo presente, sê constan­temente zeloso). Arrepende-te está no aoristo, requerendo uma ação imediata em uma decisão crucial.

Pode parecer estranho que sê [...] zeloso preceda arrepende-te. Plumptre obser­va: “A raiz da maldade da igreja de Laodicéia e seus representantes era sua indiferença e mornidão, a ausência de qualquer zelo, de qualquer seriedade. E o primeiro passo, portanto, para coisas mais elevadas era passar para um estado em que esses elementos de vida não mais seriam manifestos pela sua ausência”.

A esse chamado para arrependimento “Cristo acrescenta a mensagem mais terna encontrada nessas cartas”: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele, comigo (20). Esse é um dos mais importantes textos do evangelho no Novo Testamento e deveria ser citado frequentemente na evangelização pública e na abordagem pessoal. Por esse moti­vo, esse versículo deveria ser memorizado por todo cristão e ganhador de almas.

A simplicidade do evangelho é expressa de maneira singular nessa passagem. Cris­to está parado à porta do coração de cada pecador, batendo e esperando para entrar. Ele não vai demolir a porta e forçar a entrada, porque nos criou com vontade própria e não violará esse aspecto. Mas se o pecador abrir a porta, o que só ele pode fazer, o Salvador promete entrar. A grande tela de Holman Hunt, “A Luz do Mundo”, é a evangelização tornada visual.

A ideia de “cear” é de comunhão, e mais especificamente de uma comunhão sem pressa ao redor da mesa do jantar, quando a agitação do dia passou. O pensamento é expresso belamente pela NEB: “e sentar para jantar com ele”. Esse aspecto também antevê o banquete eterno com Cristo.

A comunhão é dupla. G. Campbell Morgan a descreve da seguinte forma: “Primeiro, serei seu Convidado, ‘Eu cearei com ele’. Ele será o meu convidado, ‘e ele comigo’. Senta­rei à mesa que o seu amor provê e satisfarei o meu coração. Ele sentará à mesa que o meu amor proverá e satisfará o seu coração”.

5. Recompensa (3.21)

A promessa final é: Ao que vencer, lhe concederei que se assente comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono.

Esse é um eco e extensão da promessa que Jesus fez aos seus doze apóstolos em Mateus 19.28 e Lucas 22.29,30. Jesus venceu todas as tentações e provações na sua vida na terra e recebeu sua recompensa. Para aqueles que o seguem plena e fielmen­te até o fim, uma recompensa igual o estará aguardando. Essa promessa obviamente antecipa a vida futura.

6. Convite (3.22)

Mais uma vez os ouvintes dessas cartas são admoestados a ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Todas as sete mensagens estão repletas de advertências e exortações salutares para os cristãos de hoje. Faríamos bem se prestássemos atenção a elas.

Bibliografia Ralph Earle

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