Os Abençoados

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Apocalipse 2.1—3.22

No capítulo 1, encontramos “as coisas que tens visto” (1.19) — o passado. No capítu­lo 2 e 3, são registradas “as que são” — o presente. É melhor entender essa seção como que descrevendo condições prevalecentes nas sete igrejas da Ásia.

Muitos estudiosos encontraram aqui sete períodos sucessivos da história da igreja. J. B. Smith apresenta um bom resumo dessa interpretação. Éfeso retrata “o declínio primiti­vo do cristianismo vital no término do primeiro século”, a perda do seu primeiro amor. Esmirna descreve o período da perseguição, nos segundo e terceiro séculos. Pérgamo re­presenta “a união de igreja e estado sob o império de Constantino” (quarto século) com sua consequente corrupção eclesiástica e moral. Tiatira descreve “o domínio da hierarquia ro­mana”, do quinto ao décimo quinto séculos. Sardes aponta para “os dias da Reforma”, no décimo sexto século, em que “algumas pessoas [...] não contaminaram suas vestes” (3.4). Filadélfia fala de “um período de ortodoxia e evangelização por líderes tais como Wesley e Whitefield [século décimo oitavo], quando todas as nações do mundo estavam de ‘portas abertas’ para receber o Evangelho”. Laodicéia mostra “a apostasia do final dos tempos numa linguagem muito parecida com a que foi apresentada por Jesus e os apóstolos Paulo, Tiago, Pedro, João e Judas, acerca dos últimos dias”. Essa apostasia começou com a alta crítica germânica da Bíblia no décimo nono século e alcançou o estágio alarmante repre­sentado pela posição da “morte de Deus” reivindicada por teólogos em 1965.

Inquestionavelmente, há uma coincidência marcante entre as sete cartas e a sequência dos períodos sugeridos. Mas provavelmente é mais correto afirmar que todas as cartas reunidas constituem um quadro geral das condições não só nas sete igrejas da Ásia no fim do primeiro século, mas também em toda a trajetória do cristianismo duran­te toda a era da Igreja. Com isso não estamos negando que certas características descri­tas nessas mensagens eram mais dominantes em um período do que em outro.

As cartas apresentam uma estrutura bastante equilibrada. Smith sugere uma divisão em sete partes para cada igreja:

1) Proclamação;
2) Apresentação;
3) Declaração;
4) Apro­vação;
5) Censura;
6) Exortação;
7) Recompensa.

Nós adotamos um esboço semelhante.

Duas das igrejas, Esmirna e Filadélfia, não recebem uma palavra de desaprovação a respeito delas. Do lado oposto está Laodicéia, com nenhuma palavra de aprovação. Kiddle observa: Duas igrejas, a primeira e a última, são ameaçadas com a extinção completa, uma vez que cada uma carece de qualidades essenciais para a confissão da fé cristã. Louvor inadequado é dado à segunda e sexta igrejas. As três igrejas centrais são elogia­das e castigadas em diferentes graus, porque em cada uma delas existe uma mistura de elementos bons e maus; os fiéis recebem a promessa de recompensas e os infiéis são ameaçados com os mais severos castigos”. Assim, parece haver um plano propositado elaborado ao apresentar essas sete igrejas como representantes das condições existentes em todas as igrejas.

CARTA À IGREJA DE ÉFESO, 2.1-7

1.  Destino (2.1 a)

A primeira carta foi escrita ao anjo (João é informado de que as sete estrelas representam os anjos das sete igrejas. Uma vez que a palavra grega angelos significa “mensageiro” e é claramente usada para mensageiros humanos em Lucas 7.24; 9.52 e Tiago 2.25, muitos acreditam que a referên­cia aqui seja aos mensageiros que seriam enviados com as cartas às sete igrejas — talvez delegados que vieram daqueles lugares para visitar João — ou mais simplesmente, os “pastores” das igrejas. Essa ideia é contestada, visto que nas mais de 60 vezes que a palavra angelos é usada nesse livro dissociada da conexão com as igrejas, ela sempre se refere a seres sobre-humanos. Swete conclui: “Há, portanto, uma forte conjectura de que os angeloi ton ecclesion são ‘anjos’ no sentido que a palavra tem em outras partes do livro”. Charles concorda plenamente. Swete também não concorda em identificá-los como “anjos guardiões” das igrejas. Ele finalmente chega a uma conclusão: “Consequentemente, a única interpretação que sobra é a que entende que esses anjos são duplicatas ou contrapartes celestiais das sete Igrejas, que, assim, vêm a ser identificadas com as próprias Igrejas”. Provavelmente, mais aceitável é o ponto de vista de Erdman de que “anjo” é “o espírito predominante” na igreja, “uma personificação do caráter, temperamento e conduta da igreja”.

Parece que um ponto de vista melhor formulado é o de Alfred Plummer. Ele escreve: “A identificação do anjo de cada igreja com a própria Igreja é mostrada de uma maneira marcante pelo fato de, embora cada epístola ser dirigida ao anjo, ainda assim, a estrofe recorrente seja: “ouça o que o Espírito diz às igrejas”, não “aos anjos das igrejas”. O anjo e a Igreja são os mesmos sob diferentes aspectos: um no seu caráter espiritual personifi­cado; o outro, na congregação dos crentes que coletivamente possuem esse caráter.

Mas nos perguntamos se essa interpretação deixa espaço adequado para a distinção entre as estrelas e os castiçais. Este comentarista é relutante em desistir da visão popu­lar de que os anjos são os pastores das igrejas — um pensamento grandemente confortador: eles são guardados nas próprias mãos de Cristo.) da igreja que está em Éfeso. Essa era a cidade principal da província da Ásia, do lado oeste da Ásia Menor. Na época em que João a escreveu, essa cidade era um grande porto, situ­ado perto da boca do rio Caister. Caravanas nas estradas romanas do norte, leste e sul convergiam aqui, para deixar suas cargas em navios que velejavam para o oeste em direção a Corinto ou mesmo até a Itália. Éfeso era uma metrópole agitada. Essa cidade era a porta de entrada da Ásia. O pro cônsul precisava desembarcar aqui quando iniciava o seu ofício como governador da Ásia. Ao mesmo tempo, ela era a estrada principal para Roma. No início do segundo século, quando os cristãos estavam sendo enviados por navio para Roma para alimentar os leões, Inácio chamou Éfeso de a Rota dos Mártires.

Politicamente, Éfeso era uma cidade livre. Isso significava que ela desfrutava de uma medida considerável de autonomia autônomo. Nessa cidade também ocorriam os famosos jogos anuais.

Na área da religião, Éfeso era o centro de adoração de Ártemis. Seu templo era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Éfeso era chamada de “A Luz da Ásia”. Contudo, ela era uma cidade pagã, repleta de trevas da superstição pagã. Swete escreve: “A cidade era um canteiro de ritu­ais e superstições, um local de encontro do ocidente e do oriente, onde gregos, romanos e asiáticos se acotovelavam nas ruas”.

Por causa da sua importância estratégica, Paulo havia passado mais tempo aqui (perto de três anos, At 20.31) do que em qualquer outro lugar nas suas três viagens missionárias. Ele fez muitos convertidos, tanto judeus quanto gentios (At 19.10) e cons­truiu uma igreja forte. Nos anos 60 d.C., Timóteo foi colocado lá (1 Tm 1.3). A tradição da Igreja Primitiva afirma que João passou os últimos anos da sua vida nesse terceiro grande centro do cristianismo (depois de Jerusalém e Antioquia).

Hoje essa metrópole poderosa do passado é um monte de ruínas. O rio Caister en­cheu o porto com lodo, de maneira que a cidade é somente um pântano de juncos. O mar fica a cerca de dez quilômetros de distância.

Há três razões lógicas para João escrever primeiro para a igreja de Éfeso. a) Ela era a principal igreja na Ásia e estava situada na principal cidade da província, b) Ela era a cidade mais próxima de Patmos, a cerca de 100 quilômetros. Ela seria a primeira cidade a ser alcançada pelo mensageiro que levava essas cartas, c) Ela era a igreja-mãe de João. Nesse domingo pela manhã, o idoso apóstolo estava indubitavelmente pensando acerca das necessidades e problemas dessa igreja, bem como das outras seis igrejas que podem ter estado sob a sua jurisdição.

2.  Autor (2.16)

O Autor divino dessas sete cartas é Jesus Cristo. No início de cada epístola, após a saudação, Ele é descrito de uma maneira singular e que se ajusta à mensagem dessa carta. Cada vez o Autor é apresentado com as palavras: Isto diz. Então segue a descri­ção do Senhor glorificado. Swete diz o seguinte a respeito dessa fórmula introdutória: “Ela é seguida em cada caso por uma descrição de um Locutor, em que Ele é caracteriza­do por um ou mais dos aspectos da visão do capítulo 1 [...] ou por um ou mais dos seus títulos [...] os aspectos ou títulos escolhidos parecem corresponder com as circunstâncias da igreja a que a carta está sendo dirigida”. Mas, ele também observa: “Para a Igreja de Éfeso, a mãe das igrejas da Ásia, o Senhor escreve debaixo de títulos que expressam sua relação com as igrejas em geral”.

Nesse versículo, Ele é descrito da seguinte maneira: aquele que tem na sua des­tra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro. Isso nos leva de volta à descrição de Cristo em 1.12-20. Embora os castiçais (candelabros) sejam clara­mente identificados por Jesus como que simbolizando as igrejas, a interpretação das estrelas como “anjos” é explicada de maneira variada (veja comentários azul acima). Deve­mos confessar que temos uma forte afinidade com o ponto de vista apresentado por Richardson. Depois de identificar os “anjos” como mensageiros e sete como que signifi­cando “totalidade”, ele diz: “Todos os verdadeiros ministros de todas as igrejas estão nas mãos de Cristo [...] À medida que Cristo se move no meio das igrejas, Ele segura os ministros nas suas mãos”. Se essa interpretação pode ser aceita, ela fornece grande consolo ao pastor sobrecarregado.

3.      Aprovação (2.2-3, 6)

Deus nunca está desatento ao que fazemos por Ele. Jesus diz à igreja de Éfeso: Eu sei (2). Sempre é um conforto lembrar que nosso Senhor nos conhece corretamente.

A igreja de Éfeso é primeiramente elogiada por suas obras. Encontramos isso nova­mente em 2.19; 3.1,8,15. Trabalho (kopos) é um termo forte. Barclay diz que ele descre­ve “trabalho até suar; trabalho até ficar exausto; o tipo de labuta que suga toda a energia e mente que um homem possui”.

Paciência dificilmente é uma tradução adequada para a palavra grega aqui, que significa “persistência imperturbável”. Barclay comenta: “Hupomone não é a paciência inflexível que resignadamente aceita as coisas, e que curva sua cabeça quando preocupações aparecem. Hupomone é a bravura corajosa que aceita sofrimento, privação e perda e os transforma em graça e glória”.

Smith faz uma observação interessante acerca desses três termos usados aqui. Ele escreve: “Fé, esperança e amor lamentavelmente estão faltando aqui. Contraste essa igreja com a de Tessalonicenses: Éfeso tinha obras, mas não obras de fé; trabalho, mas não trabalho de amor; paciência, mas não paciência de amor” (1 Ts 1.3). Ele então torna essa declaração significativa: “Não é demais dizer que uma igreja pode ter todas essas virtudes mencionadas e mesmo assim estar destituída de vida espiritual”. Poderíamos acrescentar o seguinte: e o mesmo vale para cada indivíduo.

A igreja de Éfeso não era apenas diligente, mas também cautelosa em termos de disciplina: ela não podia sofrer (“suportar”, ARA; “tolerar”, NVI) os maus. Diferente­mente de Corinto, ela não tolerava o pecado dentro da igreja. Ela havia colocado à prova os que dizem ser apóstolos e o não são e os havia achado mentirosos. A íntima conexão dessas cláusulas sugere que os maus devem ser identificados com os falsos após­tolos. Swete explica quem eram essas pessoas: “Os falsos mestres afirmavam ser apostoloi num sentido mais amplo, mestres itinerantes com uma missão que os colocava num nível mais elevado do que os anciãos locais” (cf. 1 Co 12.28; Ef 4.11).

Esses apóstolos itinerantes se tornaram um verdadeiro problema na Igreja Primi­tiva. Evidentemente, era requerido que levassem “cartas de recomendação” de alguma igreja estabelecida (2 Co 3.1). Em sua primeira epístola, João adverte: “provai [testai] se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4.1). O Didaquê, escrita em meados do segundo século, relata como esses itinerantes deveriam ser testados: “E cada apóstolo que vem a vocês, que seja recebido como o Se­nhor; mas ele não deverá permanecer mais do que um dia; se, no entanto, for necessário, que fique mais um dia; mas se permanecer três dias, ele é falso profeta”. Em outras palavras, ele não deve se aproveitar da hospitalidade da igreja.

No melhor manuscrito grego, tens paciência (3) vem antes de sofreste, que está conectado com pelo meu nome; ou seja: “Vocês têm pacientemente sofrido por causa do meu nome”. E trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste no grego significa sim­plesmente: “e vocês não têm desfalecido”. Os cristãos de Éfeso eram obreiros incansáveis.

Acerca da descrição da igreja em Éfeso, Ramsay escreve: “O melhor comentário dis­so é encontrado na carta de Inácio aos Efésios [...] As características que ele elogia na Igreja de Éfeso são as mesmas que São João menciona [...] ‘Devo ser treinado para a disputa convosco na fé, na admoestação, na perseverança e na longanimidade’ (v. 3): ‘porque todos vós viveis de acordo com a verdade e nenhuma heresia tem se alojado no meio de vós’ (v. 6)”.

A igreja em Éfeso é também aprovada porque aborrece as obras dos nicolaítas (6). Não se sabe ao certo quem eram essas pessoas (Eles são mencionados novamente no v. 15). Irineu (cerca de 180 d.C.) diz que eles foram estabelecidos por Nicolau de Antioquia, mencionado em Atos 6.5. Mas Clemente de Alexandria questiona isso. Depois de discutir as várias teorias, Swete conclui: “Como um todo parece melhor aceitar a suposição de que um partido levando esse nome existia na Ásia quando o Apocalipse foi escrito, quer devesse sua origem a Nicolau de Antioquia, que não é improvável [...] ou a algum outro falso mestre com esse nome”.

Na expressão as quais eu também aborreço, Swete faz esta observação pertinen­te: “Aborrecer obras más [...] é uma verdadeira contrapartida do amor ao bem e ambos são divinos”.

4.      Censura (2.4)

O grande Cabeça da Igreja viu apenas uma coisa errada na congregação em Éfeso. Embora essa congregação fosse ortodoxa, perseverante e zelosa, ela carecia do amor. Sem isso, tudo o mais era em vão.

A tradução da KJV minimiza a seriedade da acusação ao inserir em itálico a pala­vra somewhat (depois substituída por something, que quer dizer “algo” ou “alguma coisa”). Isso distorce a afirmação do original. O grego diz: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (cf. ARA). Isso não era um insignificante “alguma coisa”. O texto seguinte mostra que a situação era uma completa tragédia, requerendo um remédio drástico.

Muitas vezes é dito que a igreja de Éfeso tinha “perdido” seu primeiro amor. Mas, não é isso que o texto diz. Lemos: que deixaste [o teu primeiro amor], O verbo é aphiemi, que significa “deixar ir, mandar embora, desistir, abandonar”. Tudo isso sugere uma negligência voluntária. E por isso que se exigiu o arrependimento. Pecados de omissão podem ser tão fatais em suas consequências quanto que pecados de ação.

O que era essa primeira caridade que a igreja de Éfeso havia deixado? Quase todos os comentaristas concordam que a palavra primeira precisa ser interpretada cro­nologicamente: esse era o amor da igreja primitiva em Éfeso, especialmente durante os dias do ministério de Paulo ali (cf. At 19.20; 20.37). A tentativa de alguns de interpretá-la qualitativamente como que significando “amor de primeira classe” não parece encon­trar apoio adequado na palavra grega usada aqui.  É verdade que ela pode significar “principal” ou “superior”. Mas a ideia é de prioridade e não de qualidade.

O termo caridade (ou “amor”) é interpretado pela maioria como significando “amor fraternal”. Os Pais gregos da Igreja Primitiva acreditavam que a referência era à falta de cuidado pelos irmãos pobres. Outros associam essa passagem a Jeremias 2.2, em que Deus acusa Israel de ter esquecido “do teu amor quando noiva”. Isto é, os Efésios haviam deixado o seu amor por Cristo. A melhor proposta é a posição inclusiva de Charles R. Erdman: “Esse era o amor por Cristo e o amor pelos companheiros cristãos. Os dois aspectos são inseparáveis”.

Inevitavelmente aparece uma pergunta: Porventura, o zelo da igreja de Éfeso na sua defesa pela ortodoxia contribuiu para a perda do amor? Isso é bem provável. Ao defender a verdade e disciplinar membros instáveis, é fácil desenvolver um espírito se­vero e crítico que acaba destruindo o amor. E, com frequência, quando o calor do amor divino desaparece, as pessoas tornam-se mais zelosas na luta por doutrinas e padrões ortodoxos. Esse é um perigo contra o qual todos devem vigiar.

5.      Exortação (2.5)

O primeiro passo de volta para Deus é: Lembra-te (5). Lembra-te dos dias pas­sados de bênção espiritual. Essa igreja tinha caído, não meramente tropeçado. Ela estava abatida. Esse era o caso do filho pródigo, de um modo geral. Mas ele lembrou-se (Lc 15.17) e voltou.

De que maneira essa igreja poderia se levantar outra vez? A resposta é: arrepende-te. Isso significa “mude sua mente”. Então pratica as primeiras obras; isto é, creia e obedeça. Hebreus 6.1 fala do “fundamento do arrependimento [...] e de fé em Deus”. Essa é evidentemente a combinação aqui. Swete ressalta que lembra-te, arrepende-te e pratica “obedecem aos três está­gios na história da conversão”.

Se a igreja de Éfeso rejeitasse ou falhasse em se arrepender e praticar as primei­ras obras, Jesus advertiu: brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres. Isto é, a igreja de Éfeso deixaria de existir como congregação cristã. Isso finalmente ocorreu em uma época posterior, mas a advertên­cia foi evidentemente anunciada naquela época. Cerca de 20 anos mais tarde Inácio escreveu aos Efésios: “Dei as boas-vindas à sua igreja que se tornou tão estimada entre nós por causa da sua natureza honesta, marcada pela fé em Jesus Cristo, nosso Salva­dor, e pelo amor a Ele”.

A igreja teria uma oportunidade justificada de se arrepender. Swete observa que a palavra grega para tirarei pode ser entendida como indicando “ponderação e calma judi­cial; não haveria um extermínio em um momento de raiva, mas um movimento que acaba­ria na perda do lugar que a Igreja tinha sido chamada a cumprir; a não ser que houvesse uma mudança para melhor, as primeiras sete lâmpadas da Ásia desapareceriam”.

6.      Convite (2.7a)

A exortação Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas ocorre em cada uma das sete cartas. Nas três primeiras, a exortação precede a promessa ao vence­dor. Nas últimas quatro, a exortação vem após a promessa. Veja também 13.9.

Esse é um eco das palavras de Jesus nos evangelhos, quando ele diz: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça” (Mt 11.15; 13.9, 43; Mc 4.9, 23; Lc 8.8; 14.35).

7.      Recompensa (2.7b)

Em cada carta há uma promessa para aquele que vence. O verbo ocorre frequentemente no livro de Apocalipse, cujo tema principal é a Igreja, por meio de Cristo, vencendo todo mal. Swete diz que o termo indica “ ‘o vencedor’, o membro vitorioso da Igreja, como tal, à parte de todas as circunstâncias”.

A promessa aqui para o vencedor é que ele terá o direito de comer da árvore da vida. Adão falhou quando testado e perdeu esse direito. Agora esse direito é prometido àqueles que serão fiéis diante da tentação. Swete comenta: “Comer da árvore é desfrutar de tudo o que a vida futura tem a oferecer para a humanidade redimida”.

A palavra paraíso obviamente nos leva de volta ao Éden, onde a árvore da vida é mencionada primeiramente como estando “no meio do jardim” (Gn 2.9). Agora lemos que ela está no meio do paraíso de Deus. Acerca do significado desse termo Swete observa: “O ‘Paraíso’ do N.T. ou é o estado dos mortos abençoados (Lc 23.43) ou uma esfera supramundana identificada com o terceiro céu para o qual as pessoas chegam em um êxtase (2 Co 12.2ss); ou, como aqui, a alegria final dos santos na presença de Deus e de Cristo”.

Na mensagem para Éfeso vemos: 1) A insuficiência das obras (vv. 2,3); 2) A necessi­dade do amor (v. 4); 3) A natureza do arrependimento (v. 5).

CARTA À IGREJA DE ESMIRNA, 2.8-11

1.      Destino (2.8a)

Esmirna concorria com Éfeso pela honra de ser chamada “a principal cidade da Ásia” e a “metrópole”. Assim, ela logicamente vem em segundo lugar na lista aqui. A cidade, chamada “a Beleza da Ásia”, estava situada na ponta do bem protegido golfo, com um excelente porto. Ela se aproximava de Éfeso no que tange ao volume do comércio de exportação. Ela continua sendo uma grande cidade, a única das sete que atualmente é próspera. Hoje, “os figos de Esmirna” são vendidos em todo o mundo.

A igreja lá foi aparentemente fundada quando Paulo estava pregando em Éfeso (At 19.10). Ela continuou sendo um forte centro eclesiástico por vários séculos. A Izmir (Veja Aqui) moderna tem uma população de cerca de trezentos mil habitantes.

2.      Autor (2.8b)

Cristo é aqui identificado como o Primeiro e o Último. Já encontramos essa expressão em 1.17. Ele então é descrito como Aquele que foi morto e reviveu, ou “que esteve morto e tornou a viver” (ARA). Isso também lembra 1.18: “fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre”. A referência claramente é à crucificação e ressurreição de Cristo.

Mas essas palavras tinham uma relevância peculiar na carta à igreja de Esmirna. Porque essa cidade havia morrido e tornou a viver. Strabo diz que os lídios destruíram o lugar e por cerca quatrocentos anos não houve cidade ali, apenas algumas vilas espalha­das. Ramsay observa: “Todos os leitores de Esmirna certamente seriam sensibilizados à impressionante analogia com a história primitiva de sua própria cidade”.

3.      Aprovação (2.9)

Mais uma vez Cristo diz: Eu sei. Essas palavras descrevem tanto conforto quanto advertência.

A palavra obras não está no melhor manuscrito grego. Duas coisas são mencio­nadas: tribulação e pobreza. Aparentemente, tribulação gerou pobreza (cf. v. 10). Hebreus 10.34 diz: “Porque também vos compadecestes dos que estavam nas prisões e com gozo permitistes a espoliação dos vossos bens, sabendo que, em vós mesmos, tendes nos céus uma possessão melhor e permanente”. Em uma situação semelhante em Esmirna, parece que bandos judeus e pagãos estavam saqueando a propriedade dos cristãos.

A palavra grega para tribulação (thlipsis) é forte, significando “pressionado” ou “espremido”. Tribulação vem do latim tribulum, que significa uma debulhadora, usada para debulhar os grãos. Assim, temos duas figuras. A palavra grega sugere a figura de um lagar, no qual o suco das uvas era espremido. A palavra latina transmite a figura do grão sendo batido com uma vara, para tirar os grãos da casca. Juntos, eles sugerem a natureza da tribulação. É uma questão de pressão e golpes.

Embora exteriormente a igreja em Esmirna fosse caracterizada pela pobreza, ela era, na verdade, rica. Materialmente pobre, espiritualmente rica — essa combinação é observada mais de uma vez no Novo Testamento.

Jesus também conhecia a blasfêmia dos que se dizem judeus e não o são. Paulo escreveu aos Romanos: “Porque não é judeu o que o é exteriormente [...] Mas é judeu o que o é no interior” (Rm 2.28-29). Esses perseguidores em Esmirna eram judeus por raça e religião, mas não eram verdadeiros filhos de Abraão. Que os judeus perseguiram os cristãos é amplamente evidenciado no livro de Atos, bem como nos escritos do segundo século de Justino, o Mártir, e Tertuliano. Os judeus odiavam de uma maneira especial os convertidos do judaísmo ao cristianismo. Ao se opor ao evangelho, eles com frequência recorriam à blasfêmia (cf. At 13.45). A palavra grega blasphemia significava “difama­ção” quando dirigida aos homens, mas blasfêmia quando dirigida a Deus. Aqui prova­velmente significava as duas coisas.

A história do martírio de Policarpo em Esmirna é especialmente relevante. Os ju­deus chegaram a superar os pagãos em seu ódio e zelo. Eles acusaram Policarpo de hostilizar a religião do estado. Esses inimigos, “com uma ira incontrolável gritavam em alta voz: ‘Esse é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o demolidor dos nossos deuses, que ensina a muitos que não se deve sacrificar nem adorar’ ”. Embora fosse num sábado, eles juntaram madeira para queimar Policarpo vivo.

À luz dessa atitude hostil não é de surpreender que os judeus sejam chamados de a sinagoga de Satanás. Por causa da oposição dos judeus, os cristãos evitaram o uso da palavra sinagogue e preferiram ecclesia (gr., assembleia) para suas congregações. O úni­co texto no Novo Testamento em que sinagogue é usado para identificar uma assembleia cristã se encontra em Tiago 2.2. Isso pode ter sido escrito antes que a perseguição judai­ca aos cristãos se tornasse generalizada.

É uma coincidência interessante que a expressão sinagoga de Satanás ocorra so­mente aqui e na carta à igreja de Filadélfia. Essas são as duas únicas cartas sem uma palavra de censura. Assim, na mensagem a essa igreja passamos diretamente da apro­vação para a exortação.

4.      Exortação (2.10)

A igreja em Esmirna é admoestada: Nada temas das coisas que hás de pade­cer. Coisas piores aguardavam essa congregação: Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados. Isso mostra que os judeus se uniriam às autoridades pagãs na perseguição. Ambos seriam instigados pelo diabo. Era ele que, em última análise, lançava os cristãos na prisão. Tentados significa “testados”. O verbo grego era usado para testar metais no fogo, para certificar-se de que não apre­sentavam impurezas. Da mesma maneira, as almas dos crentes seriam testadas na fornalha da aflição.

A tribulação (perseguição) duraria dez dias. Essa expressão indica um breve perí­odo (cf. Dn 1.12,14). Swete comenta: “O número dez provavelmente é escolhido porque, embora seja suficiente para sugerir a continuidade do sofrimento, ele aponta para um final que está se aproximando”. Deus cuidaria para que não sofressem acima do que poderiam suportar. Se fossem fiéis até à morte — provavelmente uma alusão ao martí­rio — receberiam a coroa da vida. A palavra grega para coroa não é diadema, signifi­cando coroa real, mas stephanos, a coroa do vitorioso. Apropriadamente, Estêvão (gr., Stephanos), o primeiro mártir cristão, tinha esse nome. Provavelmente, a frase coroa da vida significa que a coroa é vida eterna (genitivo epexegético).

5.      Convite (2.11a)

Aqui novamente encontramos a exortação-convite: Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. A mensagem de advertência era necessária não só para os crentes em Esmirna, mas para todos os cristãos em todos os lugares.

6.      Recompensa (2.116)

A promessa para o vencedor aqui, como no caso de todas as sete cartas, é apropriada para a mensagem visando a uma igreja em particular. Mesmo se esses fiéis de Esmirna tivessem de sofrer morte física por causa de Cristo, eles nunca seriam feridos pela se­gunda morte — isto é, a morte espiritual. Essa expressão impressionante ocorre nova­mente em 20.6,14 e 21.8, onde ela é identificada como o lago de fogo, o lugar do castigo eterno. A frase também é encontrada nos Targuns judaicos (paráfrases aramaicas do Hebraico do AT). Não receberá o dano é negativo duplo no grego: “de modo nenhum”.

Tem sido sugerido (Pulpit Bible) que essa carta transmite “Palavras de Regozijo de um Salvador Reinante para uma Igreja Sofredora”: 1) Um Salvador vivo acima de todos (v. 8); 2) Um Salvador vivo conhecendo tudo (v. 9a); 3) Um Salvador vivo avaliando a todos: tu és rico; 4) um Salvador vivo antevendo tudo (v. 10); 5) Um Salvador vivo limi­tando tudo: dez dias; 6) Um Salvador vivo encorajando a todos (v. 10a); 7) Um Salvador prometendo vida no fim de tudo (v. 10b).

CARTA À IGREJA DE PÉRGAMO, 2.12-17

1. Destinatário (2.12a)

Esmirna ficava a cerca de 55 quilômetros de distância de Éfeso. A rota adiante é descrita por Swete: “Depois de deixar Esmirna, a estrada de Éfeso seguia a costa por cerca de 65 quilômetros e então subia em direção ao nordeste para o vale de Caicus, por mais 25 quilômetros, onde ficava a cidade de Pérgamo”.

A localização física de Pérgamo era notória. Ramsay escreve: “Mais do que qual­quer outro lugar na Ásia Menor, essa cidade dá ao viajante a impressão de uma cidade majestosa, o lar da autoridade; o monte rochoso no qual se localiza é enorme e domina a imensa planície do Caicus de maneira orgulhosa e ousada”. Charles diz: “A cidade mais antiga foi construída num monte, a 350 metros de altura, que se tornou o lugar da acrópole e de muitas das principais construções da cidade posterior”.

No início do século terceiro a.C., foi fundado o reino de Pérgamo. Em 133 a.C., o rei Atalus III deixou seu reino para os romanos. Eles o transformaram na província da Ásia. Ramsay diz: “Pérgamo era a capital oficial da província por dois séculos e meio: a tal ponto que a sua história como a base de autoridade suprema sobre um imenso país durou cerca de quatro séculos e não havia chegado ao fim quando as sete cartas foram escritas”.

2.      Autor (2.12b)

Dessa vez Cristo é descrito como aquele que tem a espada aguda de dois fios (cf. 1.16). A razão dessa referência à espada é vista claramente em 1.16. Ela deve ser o instrumento de julgamento contra os hereges na igreja de Pérgamo.

Há também uma outra razão para essa identificação do autor. Ramsay observa: “Na avaliação romana a espada era o símbolo da ordem mais elevada de autoridade oficial com a qual o pro cônsul da Ásia era investido. O ‘direito da espada’ [...] podia ser equiva­lente ao que chamamos hoje de poder sobre a vida e a morte”.

3.      Aprovação  (2.13)

Mais uma vez (cf. v. 9) tuas obras não se encontra no melhor texto grego, que traz: “Eu sei onde habitas”. Lá ficava o trono de Satanás. A palavra grega para trono é thronos.

Por que Pérgamo é chamado de lugar do trono de Satanás? A resposta é que era o centro de adoração ao imperador da Ásia. Ramsay escreve: “O primeiro (e por um tempo considerável o único) templo provincial do culto imperial na Ásia foi construído em Pérgamo em honra a Roma e Augusto (provavelmente 29 a.C.). Um segundo templo foi construído ali em honra a Trajano e um terceiro em honra a Severo. Assim, Pérgamo, foi a primeira cidade a ter a honra de ser a guardiã do templo uma ou duas vezes na religião do Estado; e mesmo a terceira vez como guardiã do templo ocorreu alguns anos antes do que a vez de Éfeso”. Assim, aqui Satanás representa “o poder e a autoridade oficial que está em oposição com a Igreja”.

R. H. Charles resume bem a situação. Ele diz: “Atrás da cidade no primeiro século d.C. ergueu-se um enorme monte cuneiforme, com 350 metros de altura, coberto de tem­plos e altares pagãos, que, em contraste com o “monte de Deus”, de acordo com Isaías 14.13 e Ezequiel 28.14,16 e chamado de “o trono de Deus” em 1 Enoque 25.3, apareceu ao vidente como o trono de Satanás, uma vez que era o lugar de muitos cultos idólatras, mas acima de todo o culto imperial, que ameaçava com aniquilação a própria existência da Igreja. Recusar-se a participar desse culto constituía uma séria traição ao Estado”.

O segundo item na aprovação ou louvor da igreja em Pérgamo é: e reténs o meu nome e não negaste a minha fé. Quando as autoridades romanas exigiram que os cristãos proclamassem: “César é Senhor”, eles respondiam: “Jesus é Senhor” (cf. 1 Co 12.3). Eles permaneceram firmes, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemu­nha (martys, “meu fiel mártir”, KJV). No segundo século, martys (genitivo, martyros) recebeu o significado técnico de “mártir”. Há uma discussão em torno do significado des­sa palavra nesse texto. Alguns entendem que martys deveria ser traduzido por mártir, ao passo que outros entendem que ela deveria significar testemunha. De qualquer for­ma, essa testemunha foi morta. Apesar das lendas, nada se sabe ao certo a respeito de Antipas além do que é informado nessa passagem.

O qual foi morto entre vós não indica necessariamente que Antipas era um mem­bro da igreja de Pérgamo. Ramsay diz que “muitos mártires foram levados a juízo e conde­nados ali que não eram de Pérgamo. Prisioneiros eram trazidos de todas as partes da província de Pérgamo para julgamento e condenação diante da autoridade que possuía o direito da espada [...] o poder da vida e da morte, a saber, o pro cônsul romano da Ásia”.

4.      Censura (2.14,15)

O Cabeça da Igreja tem algumas coisas contra a congregação de Pérgamo. A primei­ra é: tens lá os que seguem a doutrina de Balaão (14). Como em todo o Novo Testa­mento, doutrina (didache) deveria ser traduzida por “ensinamento”.

Balaão é descrito como aquele que ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prosti­tuíssem. Essa declaração preenche um pequeno hiato no relato do Antigo Testamento. Lá lemos que Balaão foi chamado por Balaque, rei de Moabe, para amaldiçoar os israelitas, a quem temia (Nm 22.1—24.25). Quando Deus não permitiu que o profeta amaldiçoasse seu povo, evidentemente Balaão sugeriu uma maneira indireta de trazer a maldição divina sobre Israel. Isso é indicado em Números 21.16, em que Moisés disse às mulheres de Moabe: “Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, deram ocasião aos filhos de Israel de prevaricar contra o SENHOR, no negócio de Peor, pelo que houve aquela praga entre a congregação do SENHOR”. O “negócio de Peor” era uma combinação de idolatria e imoralidade (Nm 25.1-9), como podemos ler em Apocalipse. O que o relato deixa mais claro aqui é o fato de Balaão ter aconselhado Balaque a fazer com que suas mulheres seduzissem os homens israelitas nesses dois pecados. O esquema funcionou bem demais. Balaão também é mencionado em 2 Pedro 2.15 e Judas 11.

A palavra grega para tropeços (scandalon; cf. escândalo) foi primeiramente usada para a isca de uma armadilha e, em seguida, para a própria armadilha. Isso se encaixa perfeitamente na figura aqui. Balaque preparou uma armadilha para os israelitas e eles foram apanhados nela. Swete comenta: “As mulheres de Moabe foram deliberadamente lançadas no caminho dos homens israelitas, que não suspeitavam de nada, na esperança de causar a ruína deles”. Lenski traduziu a expressão aqui: “lançar uma armadilha diante dos filhos de Israel”.

Pelo que tudo indica, havia alguns membros na igreja em Pérgamo que procuraram convencer os membros a aceitar os costumes pagãos para evitar perseguição. Eles defen­deram a ideia de comer nos templos pagãos e participar na adoração aos ídolos, o que incluía prostituir-se com as “virgens” do templo. É possível que tenham dito que o que alguém faz com o corpo não afeta a sua alma. O fato de comer carne sacrificada aos ídolos já tinha se tornado um problema em Corinto, onde Paulo tratou disso (1 Co 8). Essa era uma questão vital no primeiro século.

Como em Éfeso, havia em Pérgamo alguns nicolaítas (15). Em relação à sua dou­trina (ensinamento). Smith acredita que nicolaítas significa “aliciadores dos leigos” e que a descrição de Pérgamo prefigura o surgimento da hierarquia papal na igreja católica romana.

5.      Exortação (2.16)

Os cristãos de Pérgamo, como também os de Éfeso, são ordenados a arrepender-se. O arrependimento era a única coisa que poderia evitar o julgamento severo — quando não, em breve virei a ti e contra eles bata­lharei com a espada da minha boca. Swete escreve: “O Cristo glorificado nesse livro é um Guerreiro, que batalha com a espada afiada da palavra” (cf. 1.16; 19.13-16).

A situação em Pérgamo era pior do que em Éfeso. Jesus disse o seguinte à igreja de Éfeso: “que aborreces as obras dos nicolaítas” (v. 6). Para Pérgamo Ele escreveu: “tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu aborreço”. A mudança de “aborreces” para “tens” e de “obras” para “doutrinas” provavelmente é significativa. Ago­ra os nicolaítas estavam dentro da igreja e seus ensinamentos destrutivos estavam sen­do aceitos por alguns. Se a igreja não se arrepender imediatamente (aoristo), Cristo virá (lit.: “Eu estou vindo”, presente profético) em breve para o julgamento. Não havia tem­po para perder. Batalharei (futuro) literalmente significa: “promoverá guerra”. Esses nicolaítas eram os inimigos de Cristo e do cristianismo. Tanto Lenski quanto Charles entendem que os seguidores de Balaão e os nicolaítas constituíam o mesmo grupo.

6.      Convite (2.17a)

Joseph Seiss apresenta um tratamento tríplice em relação ao texto: Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. 1) “Uma repreensão solene àqueles que se chamam de cristãos, mas raramente, ou nunca, abrem a sua Bíblia para estudá-la”; 2) “Tudo que diz respeito à salvação depende de profunda atenção à palavra divina e o uso diligente dos nossos privilégios, de ouvir, assinalar, aprender e digerir interiormente o que ela contém”; 3) “Todos têm a capacidade de prestar atenção e, assim, cabe a cada um usar essa capacidade”.

7.      Recompensa (2.17b)

Alguns dos crentes professos de Pérgamo evidentemente estavam celebrando nos templos pagãos. Mas aos vencedores fiéis, Cristo promete que irão comer do maná escondido. A alusão parece referir-se ao vaso de ouro de maná na arca no antigo Tabernáculo (Êx 16.33; Hb 9.4). Havia uma tradição entre os judeus de que a arca foi escondida por Jeremias na caverna do monte Sinai, onde não seria descoberta “até que Deus reunisse novamente as pessoas e mostrasse a sua misericórdia” (2 Macabeus 2.7).

Charles acredita que o texto aqui se refere ao maná celestial descrito pelos rabis como sendo moído para os justos. Ele diz: “De acordo com 2 Baruque 29.8, o tesouro do maná deveria descer do céu durante o Reino Messiânico, e os bem-aventurados deveriam comer dele”. Ele também escreve: “O ‘maná escondido’ provavelmente sig­nifica os dons espirituais diretos que a Igreja triunfante receberá em uma medida excelente da comunhão íntima com Cristo”. Mas, será que esse maná escondido não significa também “comunhão íntima com Cristo” no presente, alimentando nos­sas almas do Pão da Vida?

Ao vencedor também se promete uma pedra branca. O que essa expressão signifi­ca? Charles alista cinco interpretações que têm sido sugeridas: “1) A pedra branca usada pelos jurados, significando absolvição... 2) Apsephos que permitia àquele que a recebia um acolhimento livre [...] [nas] assembleias reais [...] Portanto, ela era considerada um bilhete de admissão para a festa celestial. 3) As pedras preciosas que, de acordo com a tradição rabínica, caíam junto com o maná... 4) As pedras preciosas no peitoral do sumo sacerdote levando os nomes das Doze Tribos. 5) A pedra branca era considerada um símbolo da felicidade”.

Charles não acha qualquer uma dessas explicações satisfatória: “Ou apsephos não é branca ou não tem nenhuma inscrição nela”. Ele busca analisar o pano de fundo das superstições populares daquela época.

Incluído no problema está o significado do novo nome inscrito na pedra. Swete faz a sugestão útil de que a referência pode ser às “pedras gravadas que eram empre­gadas para propósitos mágicos e traziam nomes místicos”. Atos 19.19 indica que a magia era comum na cidade de Éfeso. Swete acrescenta: “A mágica divina, que grava na vida e no caráter humano o Nome de Deus e de Cristo, é colocado em contraste com as imitações baratas que fascinavam a sociedade pagã”. Em 3.12, Jesus diz para o vencedor da igreja de Filadélfia: “E escreverei sobre ele o nome do meu Deus”.

Ramsay acha que a pedra significa o aspecto imperecível do nome. Ele escreve: “O nome que foi escrito na pedra branca se tornava imediatamente o nome do cristão vitorioso e o nome de Deus [...] Pérgamo e Filadélfia são as duas igrejas elogiadas. Delas se diz respectivamente: ‘reténs o meu nome’ e: ‘não negaste o meu nome’; e elas são recompensa­das com o novo nome, que é ao mesmo tempo o nome de Deus e o seu próprio nome, uma possessão eterna, conhecida somente por aqueles que o possuíam [...] eles não serão mera­mente ‘cristãos’, o povo de Cristo; eles serão o povo da sua nova personalidade como Ele é revelado daqui por diante em glória, levando esse novo nome da sua gloriosa revelação”.

A palavra grega para novo não é neos, que significa “recente” em origem, mas kainos, que significa “fresco” em qualidade. “O ‘nome’ cristão, i.e., o caráter da vida interior que o evangelho inspira, possui a propriedade da eterna juventude, nunca perdendo seu po­der e sua alegria”.

CARTA À IGREJA DE TIATIRA, 2.18-29

1.      Destinatário (2.18a)

Cerca de 65 quilômetros a sudeste de Pérgamo ficava Tiatira. Era uma cidade da Lídia, perto da fronteira com a Mísia. Construída por Seleuco I, fundador da dinastia dos Selêucidas, ela foi povoada pelos veteranos das campanhas de Alexan­dre, o Grande, na Ásia. Em torno de 190 a.C., Tiatira foi tomada pelos romanos. Embora tivesse um centro comercial próspero, era muito inferior ao de Éfeso, Esmirna, e Pérgamo. Charles observa: “A carta mais longa foi dirigida à cidade menos importante das Sete Cidades”. Evidentemente, havia judeus ali, porque Atos 16.14 menciona “Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus”. Parece que na época ela era uma prosélita convertida ao judaísmo.

A igreja em Tiatira evidentemente era pequena. Fala-se que ela desapareceu no fim do segundo século.

2.      Autor (2.18b)

O autor dessa carta se identifica como o Filho de Deus, uma frase encontrada somente aqui no livro de Apocalipse. Jesus reivindicou esse título durante o seu tempo aqui na terra (Mt 11.27; Lc 10.22) e aprovou Pedro por professá-lo (Mt 16.16,17). Foi por causa dessa afirmação que Jesus foi condenado pelo Sinédrio (Mt 26.63; Jo 19.7).

Cristo é descrito como Aquele que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao latão reluzente. Encontramos aqui um eco de 1.14,15. A adequação da caracterização dupla é expressa da seguinte forma por Swete: “Essa menção dos olhos que flamejam com indignação justa e os pés que podem pisotear os inimigos da verdade prepara o leitor para o tom severo da declaração que se segue”. Erdman se expressa de forma ainda mais sucinta: “Assim, ele é capaz de penetrar nos segredos de todos os corações e ele tem poder para castigar e subjugar”. Esses olhos flamejantes penetram e descobrem todo engano da hipocrisia. Nas Escrituras, o latão frequentemente é o símbo­lo do julgamento.

3.      Aprovação (2.19)

As palavras desse versículo na KJV obviamente estão incorretas, porque apresen­tam uma lista começando e terminando com tuas obras — uma repetição sem significa­do. Além disso, o melhor texto grego traz fé antes de serviço. A RSV apresenta uma tradução correta: “Conheço as suas obras, o seu amor, a sua fé, o seu serviço e a sua perseverança, e que suas últimas obras excedem as primeiras”. A New English Bible traz: “Vocês agora estão fazendo ainda melhor do que no princípio”.

Cristo tinha elogiado a igreja de Éfeso pelas suas obras. Mas a igreja de Tiatira estava um passo à frente. Ela é cumprimentada pela sua caridade. A palavra grega é ágape e sempre deveria ser traduzida por “amor”. Caridade representa os caritas da Vulgata latina, a Bíblia oficial da igreja católica romana. Hoje, caridade significa um espírito de tolerân­cia ou dar aos necessitados. Ágape é um termo muito mais rico do que isso. As pessoas do mundo também podem ser filantrópicas ou tolerantes. Mas ágape é o amor divino implan­tado no coração humano e que flui em um serviço abnegado e sacrificial aos outros.

A palavra grega pistis pode significar ou fé ou “fidelidade” (NEB). Não se sabe exatamente qual das duas palavras se tem em mente aqui. Talvez a melhor saída é permitir os dois significados (cf. Phillips, “lealdade”).

Serviço é diakonia. Beyer diz que essa palavra significa “qualquer ‘realização de serviço’ feito com amor genuíno”. Lenski define diakonia como “serviço voluntário para o benefício e a ajuda daqueles que precisam dele e realizado liberalmente”.

Paciência (hypomone) significa mais do que o suportar passivo de privações ou provações. Essa palavra significa, na verdade, uma constância ou persistência (“perse­verança”, NASB) positiva.

Devido à prolongada censura que se segue, é surpreendente que uma aprovação tão entusiástica é dada a essa igreja. Swete comenta: “É digno de observação que nessas cartas às igrejas o elogio é apresentado com mais liberalidade, se é que pode ser feito com justiça, quando segue a censura; diz-se mais acerca das boas obras das igrejas de Éfeso e Tiatira, do que das igrejas de Esmirna e Filadélfia, em que não se encontra falta alguma”. Essa característica está de acordo com a psicologia sadia, que aconselha a dizer tudo que é positivo antes de se chamar a atenção das faltas da outra pessoa.

4.      Censura (2.20-23)

A primeira parte do versículo 20 deveria ser traduzida da seguinte forma: “No en­tanto, contra você tenho isto: que você tolera a mulher Jezabel” (RSV, NASB). A tole­rância do mal era o pecado constante da igreja de Tiatira. Jezabel é provavelmente um nome simbólico — “Essa mulher, Jezabel”. A referência é obviamente à esposa de Aca­be, que seduziu os israelitas a adorar Baal (1 Rs 16.31). Também são mencionados suas “prostituições” e “feitiçarias” (2 Rs 9.22). Uma vez que alguns manuscritos e versões antigas trazem “tua mulher Jezabel” (i.e., “tua esposa Jezabel”), Grotius (século dezessete) sugere que o autor fala da esposa do bispo de Tiatira. Mas essa noção é hoje quase uni­versalmente rejeitada. Duesterdieck diz que se tem “uma mulher específica em mente; não a esposa de um bispo, nem uma mulher que é, de fato, chamada Jezabel, mas uma determinada mulher que diante da ambição de ser uma profetisa tinha aprovado as doutrinas dos nicolaítas e por esse motivo foi escolhida a nova Jezabel”. Isso provavelmente representa a opinião da maioria hoje.

Não era incomum ter uma profetisa na Igreja Primitiva (cf. At 21.9). No Antigo Testamento, diversas mulheres recebem esse título (e.g., Miriã, Débora, Hulda). O único lugar no Novo Testamento em que prophetis (fem.) ocorre é Lucas 2.36 (Ana).

A falsa profetisa de Tiatira estava sendo tolerada para que ensine e engane os meus servos, para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria. Es­sas duas coisas são atribuídas aos seguidores de Balaão (e nicolaítas?) em Pérgamo (v. 14).

Tiatira era conhecida pelas suas inúmeras associações comerciais. Isso gerava um problema especial. Charles escreve: “Agora, visto que a participação de alguma dessas associações [...] não significava essencialmente nada além de participar de uma refeição em comum, que era dedicada indubitavelmente a algum deus pagão, mas que era exatamente por isso sem sentido para o cristão iluminado; beneficiar-se desse tipo de participação era considerado em certos círculos liberais algo bastante justificável.

Por razões comerciais ou sociais, parecia quase imperativo pertencer a alguma asso­ciação. Mas, acredita-se que essas reuniões comerciais frequentemente acabavam em orgias e bebedeiras. Por isso, a referência à prostituição. Essa profetisa estava defen­dendo uma atitude moral e religiosamente liberal.

Evidentemente, uma advertência peremptória foi dada a essa Jezabel, mas ela ti­nha se recusado a se arrepender (v. 21), i.e., mudar sua opinião e caminhos. Portanto, o Senhor deve lidar com ela severamente. Por causa da sua prostituição Ele a colocaria numa cama (22). Essa expressão é somente uma de muitas, que mostram a tendência de João, que, embora escrevesse em grego, pensava em formas hebraicas. Referente a essa frase, Charles escreve: “Se a traduzirmos literalmente para o hebraico, descobriremos que temos aqui uma expressão idiomática hebraica [...] ‘ficar preso à cama’, ‘ficar doente’ (Êx 21.18): consequentemente, ‘colocar numa cama’ significa ‘colocar num leito de enfermidade”.

E sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, deve provavelmente ser entendido como um paralelismo hebraico. Adulteraram provavelmente significa adul­tério espiritual. Mas a porta da misericórdia continua aberta — se não se arrepende­rem das suas obras. Arrependimento genuíno sempre coloca o julgamento de lado.

Recusa contínua de se arrepender resulta em mais castigo severo: E ferirei de morte a seus filhos (23). Provavelmente, seus filhos significa: “sua descendência espi­ritual, como distintos daqueles que foram enganados por um tempo”. Ferirei de mor­te é um hebraísmo típico. Ele significa “matar” (ARA, NVI).

Essa seria uma advertência para todas as igrejas. Elas saberão que eu sou aquele que sonda as mentes e os corações (cf. Jr 11.20; 17.10). Mentes (palavra grega somente encontrada aqui no NT) literalmente significa “os rins”; isto é, “os movimentos da vontade e afeições”. Corações na psicologia hebraica referia-se especialmente aos pensamentos. O olhar do Onisciente penetra até o mais profundo do intelecto, emoções e vontade do homem.

O julgamento divino sempre é justo. Cada um receberá segundo as suas obras (cf. Rm 2.6).

5.      Exortação (2.24,25)

Há uma palavra de conforto aos restantes que estão em Tiatira (24) — talvez a maior parte dos membros — e que não aceitaram a doutrina (ensinamento) de Jezabel, e não conheceram [...] as profundezas de Satanás. Para os gnósticos do segundo século, a expressão “as coisas profundas” era uma frase favorita. Eles reivindicavam um conhecimento esotérico que era desconhecido pelas pessoas não iniciadas.

Duas interpretações têm sido apresentadas acerca das profundezas de Satanás. Uma é que os nicolaítas escarneciam do restante dos cristãos como aqueles que não conheciam as coisas profundas de Deus; mas essas, na verdade, se referiam às coisas profundas de Satanás. A outra diz que os seguidores de Jezabel, na realidade, se vanglo­riavam em conhecer as profundezas de Satanás. “Esses falsos mestres entendiam que o homem espiritual deveria conhecer as coisas profundas de Satanás e que ele deve­ria tomar parte da vida pagã da comunidade. Duas das características mais salientes dessa vida pagã eram suas festas sacrificiais e suas práticas imorais.” Muitos gnósticos de épocas posteriores afirmavam que, visto que toda a matéria é má e somente o espírito é bom, não importa o que alguém faça com o seu corpo; sua alma continua pura. As duas interpretações acima podem ser aplicadas às doutrinas de mestres imorais de Tiatira.

Como dizem significa “como as chamam”. Paulo falou dos mistérios profundos da verdade divina (cf. Rm 11.33; Ef 3.18). Esses falsos mestres estavam distorcendo essa ideia.

Para aqueles que permaneceram leais à fé, Cristo declarou: outra carga vos não porei. Provavelmente, isso esteja relacionado com o versículo 25: Mas o que tendes, retende-o até que eu venha. Charles interpreta isso assim: “Definitivamente, domi­nem (kratesate) com firmeza as tarefas incumbidas a vocês, e afastem-se completamente das festas sacrificiais dos pagãos e das perversidades morais que praticam”. Ele acha que outra carga se refere aos decretos apostólicos de Atos 15.28. Mas muitos comenta­ristas questionam isso. Parece duvidoso que esses decretos ainda seriam mencionados numa época bem posterior.

6.      Recompensa (2.26-28)

À frase recorrente ao que vencer (26) é acrescentado aqui: e guardar até ao fim as minhas obras. Swete observa: “Em Tiatira, a batalha precisava ser vencida pela adesão resoluta às ‘obras de Cristo’, i.e., à pureza da vida cristã, em oposição às ‘obras de Jezabel’ ”?

A recompensa prometida é: eu lhe darei poder (exousia, autoridade) sobre as nações. O Cristo glorificado compartilhará a sua autoridade com seus seguidores fiéis. A linguagem dessa cláusula e o que segue no versículo seguinte são tirados de Salmos 2.8-9, que era interpretado como um salmo messiânico pelos judeus do século I a.C., de acordo com Salmos de Salomão (uma obra apócrifa).

A palavra regerá (27) literalmente significa “pastorear”. Assim, a vara de ferro se refere ao cajado do pastor, com a ponta de ferro para torná-la uma arma adequada con­tra os inimigos ou animais selvagens. Os ímpios são comparados com vasos de oleiro que serão quebrados. Embora essas palavras possam ter alguma aplicação à influência da Igreja no mundo atual, é óbvio que o seu cumprimento final aguarda o retorno de Cristo. Como também recebi de meu Pai é um eco de Salmos 2.7 e Atos 2.33.

Na declaração dar-lhe-ei a estrela da manhã (28), há uma expectativa de 22.16: “Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a resplandecente Estrela da manhã”. A maior recom­pensa que qualquer cristão vitorioso pode receber é o próprio Cristo. Sua presença será o céu em sua glória mais elevada.

7.      Convite (2.29)

Nas três últimas cartas, esse convite precedeu a promessa ao vencedor. Nessa e nas três cartas seguintes ela segue a promessa.

Alguém sugeriu (Pulpit Commentary) que essa carta revela “A Ira do Cordeiro”: 1) Sua realidade (v. 18); 2) Sua severidade (vv. 22-23); 3) Sua omissão (v. 21); 4) Sua justiça (v. 20); 5) Sua discriminação (vv. 24-25).

CARTA À IGREJA DE SARDES, 3.1-6

1.      Destinatário (3.1a)

Continuando rumo ao sudeste de Tiatira, o mensageiro teria de viajar cerca de 50 quilômetros até Sardes, a antiga capital da Lídia. Ela era famosa pela sua fabricação de lã e afirmava ter sido a primeira cidade a descobrir a arte de tingir lã.

Sardes havia alcançado seu ápice de prosperidade sob o rico rei Croesus (ca. 560 a.C.). Conquistada por Ciro, ela permaneceu desconhecida durante o governo persa. No período romano, houve uma certa medida de restauração. Mas Charles diz que mesmo então “nenhuma cidade na Ásia apresentou um contraste mais deplorável entre o esplendor passado e o declínio inquietantemente atual”. Por esse motivo Ramsay chama Sardes de “a cidade da morte”. Ele escreve: “Assim, quando as Sete Cartas foram escritas, Sardes era uma cidade do passado, que não tinha futuro”. Hoje existe uma pequena vila, chamada Sart.

O principal culto em Sardes era a depravada adoração de Cibele (ou Ártemis). Charles diz: “Seus habitantes tinham se destacado pela luxúria e libertinagem”. Isso dificultou a manutenção dos padrões cristãos de pureza.

2.      Autor (3.1b)

Aqui Cristo é identificado como o que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas (cf. 2.1). Com sete Espíritos de Deus evidentemente se quer dizer o Espírito Santo e sua perfeição e sua obra por meio das sete igrejas, que representam a Igreja universal de Jesus Cristo. As sete estrelas representam os mensageiros (pastores) das sete igrejas (cf. 1.20).

3.      Censura (3.1c, 2b)

A expressão Eu sei ocorre no início de cada uma das sete cartas (2.2, 9,13,19; 3.1,8,15). Nada está escondido aos olhos do Cristo onisciente. Uma vez que Ele conhece perfeitamente, Ele é capaz de julgar com justiça.

Seria difícil imaginar uma censura mais avassaladora: tens nome de que vives e estás morto. Essa cidade arrasada não estava apenas morta, mas a igreja também estava morta. Ela tinha perdido sua vida espiritual. Smith comenta: “Sardes evidente­mente era conhecida como uma ‘igreja viva’ — em que havia muita atividade, mas Aque­le que não olha para a aparência exterior, mas vê o coração declara: Tu[...]estás morto”.

Erdman leva esse pensamento um passo adiante: “Provavelmente, seus cultos eram bem frequentados e conduzidos de maneira correta. Podem ter havido comitês e aniver­sários e reuniões. No seu rol de membros podem ter havido líderes sociais notáveis. No entanto, ela estava morta”.

A igreja tinha obras, mas essas obras não eram perfeitas diante de Deus (2). Erdman comenta: “Ela não conquistou nada no reino espiritual: almas não estão sendo salvas; santos não são fortalecidos; ajuda não está sendo oferecida aos necessitados; seus cultos são formais, sem vida e sem sentido: ‘Não achei as tuas obras aperfeiçoadas diante do meu Deus’ ”

A palavra para perfeitas literalmente significa “suficientes” ou “cheias”. Swete faz a seguinte sábia observação: “‘Obras’ são ‘cheias’ somente quando são avivadas pelo Es­pírito de vida”. Precisamente, é isso que faz a diferença entre uma igreja morta e uma igreja viva. Uma sente a falta do Espírito Santo; a outra está cheia e capacitada pelo Espírito. Não será o número de atividades ou a organização eficiente que tirará o lugar da dinâmica poderosa do Espírito Santo.

4.      Exortação (3.2a, 3)

Sê vigilante (2) é literalmente: “Esteja continuamente vigilante”. Vigilante é o particípio presente do verbo gregoreo, que significa “esteja acordado” ou “vigie”. Jesus usou essa palavra duas vezes no discurso do monte das Oliveiras (Mc 13.35, 37), reque­rendo vigilância constante na preparação para sua segunda vinda.

A igreja de Sardes foi advertida da seguinte maneira: confirma o restante que estava para morrer. No meio dessa igreja morta havia alguns elementos de vida. Mas mesmo esses estão prestes a morrer — literalmente: “estavam prestes [verbo no imper­feito] a morrer”. Swete comenta: “O imperfeito olha para trás do ponto de vista do leitor da época quando a visão foi recebida e, ao mesmo tempo, com um otimismo sensível ele expressa a convicção do escritor de que o pior logo teria passado”. Isto é, os cristãos em Sardes podiam dizer: “Essas coisas estavam prestes a morrer; mas não vamos permitir que isso aconteça”.

Ramsay destaca em pormenores o significado da ordem à igreja de Sardes de ser vigilante. A cidade tinha sido capturada duas vezes pelo inimigo por causa da falta de vigilância da parte do seu povo. A primeira vez foi quando o rico Croesus era rei. Ramsay descreve a situação da seguinte maneira:

O descuido e a falta de manter uma vigilância eficiente, decorrentes da confi­ança excessiva na evidente resistência da fortaleza foram as causas desse desastre, que arruinou a dinastia e causou o fim do império da Lídia e o domínio de Sardes. Os muros e portões eram extremamente fortes. A colina na qual a cidade alta havia sido erguida era íngreme e imponente. O único acesso à cidade alta era cuidadosa­mente fortificado para não oferecer chance alguma a um invasor. Mas havia um ponto fraco: em um lugar era possível que um inimigo ágil subisse a parede perpen­dicular da montanha imponente, se os defensores fossem negligentes e permitis­sem que ele a escalasse de maneira desimpedida.

Isso ocorreu em 549 a.C. Mas em 218 a.C. voltou a acontecer. Ramsay escreve:

Mais de três séculos depois, um outro caso semelhante ocorreu. Archaeus e Antíoco, o Grande, estavam lutando pelo domínio de Lídia e todo o império selêucida. Antíoco venceu seu rival em Sardes, e a cidade foi capturada novamen­te por uma surpresa do mesmo tipo: um mercenário de Creta mostrou o caminho, escalando a colina e entrando na fortaleza sem ser observado. A lição dos dias antigos não tinha sido aprendida; a experiência havia sido esquecida; os homens foram desatentos e negligentes; e quando veio o momento da necessidade, Sardes estava despreparada.

O significado dessa lição para os cristãos é óbvio. Precisamos ter apenas um ponto fraco em nosso caráter, um lugar desprotegido em nossa vida espiritual, para ser vítima da astuta estratégia de Satanás. Continua sendo verdade que a “vigilância eterna é o preço da segurança”.

A admoestação à igreja de Sardes continua: Lembra-te, pois, do que tens rece­bido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te (3). Há uma mudança frequente do tem­po no grego que é difícil de reproduzir na tradução simples em português. Literalmen­te seria o seguinte: “Continue lembrando [presente], pois, como você [singular] tem recebido [e continua possuindo; perfeito] e ouviu [aoristo], e continue guardando [pre­sente], e arrependa-se [agora mesmo; aoristo]”. Lenski observa: “O arrependimento imediato e verdadeiro é o único remédio para a morte que se estabeleceu ou quase se estabeleceu”. Esse arrependimento sempre quando lembramos da Palavra de Deus que temos recebido e ouvido.

Swete mostra bem a força dos tempos nesse versículo: “O aoristo [ouvido] volta para o momento em que a fé veio pelo ouvir (Rm 10.17) [...]; o perfeito [tens recebido] chama a atenção à responsabilidade permanente da confiança então recebida [...] ‘guar­de aquilo que recebeu e imediatamente volte-se da sua negligência passada’ ”

Os versículos 2,3 sugerem “Cinco Passos para um Avivamento”: 1) Sê vigilante; 2) Confirma o restante que estava para morrer; 3) Lembra-te; 4) Guarda-o; 5) Arrepende-te.

Mais uma advertência é anunciada: se não vigiares, virei sobre ti como um la­drão, e não saberás a que hora sobre ti virei. Esse é um claro eco de Mateus 24.42-44. Repetidas vezes somos advertidos de que Cristo virá num momento inesperado.

5.      Aprovação (3.4)

Mesmo na igreja morta em Sardes havia um remanescente fiel — algumas pesso­as. Deissmann diz que a palavra grega (onoma) aqui tem “o significado de pessoa”. Ela é usada dessa forma na Septuaginta em Números 1.2,20; 3.40,43, em que provavelmen­te traz o pensamento adicional de “pessoas reconhecidas pelo nome”. Alguns estudiosos sentem que aqui a palavra significa “algumas pessoas cujos nomes estavam no rol de membros da igreja”.

Os fiéis não contaminaram suas vestes. Moffatt comenta: “A linguagem reflete registros de cumprimento de votos na Ásia Menor, onde roupas manchadas desqualificavam o adorador e desonravam o deus. A pureza moral nos qualifica para a comunhão espiritual”. Ir à presença de Deus com nossos pensamentos e sentimentos manchados com egoísmo é desonrá-lo. As vestes da nossa personalidade devem ser mantidas puras se desejamos ter comunhão com Deus.

Para aqueles que mantiveram sua pureza, a promessa é a seguinte: comigo anda­rão de branco. A última palavra está no plural no grego, indicando “roupas brancas”.

Uma vez que mantiveram suas vestes limpas eles serão para sempre vestidos de bran­co, símbolo da santidade divina ou da justiça de Cristo. Aqueles que permaneceram brancos são dignos dessa honra.

6.      Recompensa (3.5)

A promessa ao vencedor em Sardes se encaixa com o que acabou de ser dito: O que vencer será vestido de vestes brancas. No melhor texto grego aparece a palavra “assim”. O texto deveria ser traduzido da seguinte forma: “O que vencer, será assim vestido de vestes brancas” (referindo-se ao versículo anterior). Charles diz: “Essas ves­tes são os corpos espirituais com as quais o fiel será vestido na ressurreição”. Ele encontra apoio para isso em 2 Coríntios 5.1,4 e na literatura intertestamentária. Swete dá a essa expressão uma conotação mais ampla: “Nas Escrituras, vestuário branco denota a) festividade... b) vitória... c) pureza... d) o estado celestial”. Ele acrescenta: “Todas essas associações convergem aqui: a promessa é de uma vida livre de contami­nação, radiante de alegria celestial, coroada com vitória final”. Essa parece ser a ex­plicação mais adequada.

Aquele que vencer, que permanece firme até o fim da vida, recebe a promessa: de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida. É isso que as palavras de Jesus querem dizer em Mateus 10.22: “aquele que perseverar até ao fim será salvo”; isto é, eternamente. Esse nome não só permanecerá seguro no registro celestial, mas Jesus promete: confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Cristo não se envergonhará em reconhecer aqueles que Lhe pertencem. A linguagem aqui lembra Mateus 10.32: “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus”.

7.      Convite (3.6)

Essa frase recorrente ressalta a responsabilidade do ouvir. Essas cartas eram lidas em voz alta nas igrejas.

CARTA À IGREJA DE FILADÉLFIA, 3.7-13

Destinatário (3.7a)

Essa cidade distava de Sardes pouco menos de 50 quilômetros a sudeste. Ela recebeu o nome do seu fundador, Atalus II (Philadelphus), que reinou de 159 a 138 a.C. Muitas vezes sacudida por terremotos, ela foi destruída em 17 d.C., junto com Sardes e dez outras cidades no vale de Lídia. O medo fez com que grande parte da popu­lação deixasse de morar no interior dos seus muros. Aparentemente, tanto a cidade quanto a igreja eram pequenas nessa época.

A adoração principal era a Dionísio (mais tarde chamado de Baco). Mas a carta indica que a principal oposição veio dos judeus e não dos pagãos.

Quando os turcos conquistaram a Ásia Menor na Idade Média, Filadélfia suportou o ataque por muito mais tempo do que outras cidades. Ramsay diz: “Ela exibia todas as qualidades nobres de perseverança, verdade e constância que são atribuídas a ela na carta de João”. Hoje há uma cidade relativamente grande lá, com uma estação ferroviária.

2.      Autor (3.7b)

Cristo se descreve como o que é santo — literalmente, “o Santo”, um nome para a divindade. Ele também é o que é verdadeiro, “o Verdadeiro”. A palavra grega para verdadeiro (alethinos) significa “verdadeiro, no sentido de real, ideal, genuíno”. Bultmann diz: “Em relação às coisas divinas ela tem o sentido daquilo que verdadeira­mente é, ou daquilo que é eterno”. Comentando a respeito desse título duplo de Jesus, Swete escreve: “O Cabeça da Igreja é descrito ao mesmo tempo como santidade absoluta [...] e como verdade absoluta; Ele é tudo aquilo que afirma ser, cumprindo os ideais que prega e as esperanças que inspira”. Charles entende que, no Apocalipse, não temos o sentido clássico do grego alethinos (“genuíno”) como acontece no Evangelho de João. Em vez disso, é a ênfase hebraica na fidelidade de Deus. Ele diz: “Por isso, alethinos sugere que Deus ou Cristo, como verdadeiro, cumprirá a sua palavra”.

Jesus então se descreve como o que tem a chave de Davi, o que abre, e nin­guém fecha, e fecha, e ninguém abre. Essas palavras são citadas de Isaías 22.22. Ali o Senhor fala de Eliaquim, servo fiel de Ezequias: “E porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro, e abrirá, e ninguém fechará, e fechará, e ninguém abrirá”. A chave é o símbolo de autoridade. Charles observa que a expressão a chave de Davi “evidente­mente tem um significado messiânico [...] As palavras ensinam que a Cristo pertence completa autoridade com respeito à admissão ou exclusão da cidade de Davi, a nova Jerusalém”. Mas já em 1.18, Jesus tinha declarado que Ele tinha as chaves da morte e do Hades. Assim, Ele exercita autoridade no céu, na terra, e mesmo no reino dos mortos.

3.      Aprovação (3.8-10)

A igreja de Filadélfia, Cristo disse: eis que diante de ti pus uma porta aberta (8) – literalmente: “uma porta que foi aberta e permanece aberta”. A figura de uma porta aberta era familiar para os cristãos do primeiro século. Os missionários pioneiros, Paulo e Barnabé, relataram em Antioquia que Deus “abrira aos gentios a porta da fé” (At 14.27). Em relação à sua obra em Éfeso, Paulo escreveu: “porque uma porta grande e eficaz se me abriu” (1 Co 16.9). Pouco mais tarde, ele diz: “quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo [...] abrindo sê-me uma porta no Senhor” (2 Co 2.12). Ele pediu aos colossenses a orarem “para que Deus nos abra a porta da palavra” em Roma (Cl 4.3). Essas passagens das epístolas de Paulo parecem indicar o que significa uma porta aberta. Ela significa uma boa oportunidade para a obra missionária.

Ramsay denomina Filadélfia “a igreja missionária”. Ele diz o seguinte dessa cidade:

A intenção dos seus fundadores era torná-la um centro da civilização greco-asiática e um meio de espalhar a língua grega e seus costumes na parte oriental da Lídia e da Frigia. Ela era uma cidade missionária desde o seu princípio [...] O seu ensinamento foi bem-sucedido. Antes de 19 d.C., a língua nativa tinha deixado de ser falada na Lídia e a língua grega era a única falada nesse país.

Mas agora a igreja de Filadélfia foi chamada para um tipo de obra missionária mui­to mais importante, que é a de espalhar o evangelho de Jesus Cristo. Para essa tarefa, ela estava num lugar apropriado. A estrada do esplêndido porto de Esmirna passava por Filadélfia. Além do mais, “a estrada imperial do correio de Roma até as províncias mais ao leste” passava por Trôade, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Filadélfia. “Ao longo dessa grande rota a nova influência estava constantemente se movendo para o leste da Fila­délfia, na forte corrente de comunicação que saía de Roma, passava pela Frigia e ia em direção ao Oriente distante [...] Filadélfia, portanto, era a guardiã do portão para o planalto; mas a porta tinha agora sido permanentemente aberta diante da Igreja, e a obra de Filadélfia era passar por ela e levar o evangelho para as cidades da Frigia”.

A igreja em Filadélfia se torna um símbolo da grande iniciativa de missões mundi­ais, a próxima etapa na história do cristianismo depois da Reforma Protestante. Nos primeiros 150 anos depois do início de missões modernas protagonizado por William Carey em 1792, provavelmente mais obras missionárias foram desenvolvidas do que nos 1500 anos anteriores.

Acerca dessa porta aberta Jesus disse: ninguém a pode fechar. A “chave de Davi” (v. 7) tinha destrancado a porta, e nenhum humano ou força demoníaca poderia fechá-la. Nunca antes, em 1900 anos de história cristã, o desafio da porta aberta de missões mundiais foi maior do que agora.

Parece surpreendente ler: tendo pouca força. Evidentemente, a igreja de Filadél­fia era pequena e talvez seus membros fossem na maioria da classe mais pobre. A decla­ração guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome deveria ser traduzida da seguinte forma: “E mesmo assim guardaste a Minha palavra e não negaste o meu nome”. Evidentemente, a congregação tinha passado por um tempo de provação, mas permaneceu firme.

A frase a sinagoga de Satanás (9) já tinha aparecido em 2.9, na carta a Esmirna. Nessas duas cidades a oposição à igreja veio principalmente dos judeus. Mas eles não são verdadeiros judeus, porque não seguem os passos do Pai Abraão, nem guardam o espírito da lei de Moisés.

Desses falsos judeus o Senhor diz: eis que eu farei que venham, e adorem pros­trados a teus pés, e saibam que eu te amo. Isso parece indicar que alguns judeus seriam convertidos ao cristianismo. Essa interpretação é fortalecida pela primeira frase do versículo: eu farei aos da sinagoga de Satanás. O grego traz: “eu darei da sinago­ga de Satanás [não eu farei]”. Alguns seriam salvos.

Confirmação indireta disso é encontrada na carta de Inácio aos cristãos em Filadél­fia (ca. 120 d.C.), na qual ele os adverte para não darem ouvidos aos judaizantes. Eviden­temente, os judeus se tornaram influentes na congregação de Filadélfia.

Cristo elogiou a igreja porque ela tinha guardado a palavra da minha paciência (10), ou “resistência”. Erdman diz que essa frase dá a impressão de significar: “A prega­ção dessa imutável resistência com a qual no meio de privações Cristo deve ser servi­do”. Mas é minha paciência. Trench está certo quando comenta: “Muito melhor, no entanto, é entender todo o evangelho como ‘a palavra da paciência de Cristo’, ensinando em toda parte, como está ocorrendo, a necessidade de uma espera paciente por Cristo, até que Ele, o esperado por tanto tempo, finalmente apareça”. Lenski vai mais longe e sugere que a frase deveria ser traduzida da seguinte forma: “a Palavra que trata da resistência do Senhor”. Talvez esses dois pensamentos deveriam ser combinados: é a resistência paciente de Cristo como um exemplo para permanecermos constantes.

Uma vez que a igreja em Filadélfia tinha guardado essa palavra de Cristo, Ele, por sua vez, a guardará da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo (terra habitada), para tentar os que habitam na terra. O substantivo grego para tenta­ção é peirasmos, e o verbo grego para tentar é peirazo. A conexão óbvia no grego também aparece na versão em português (o mesmo não ocorre na KJV). O verbo signi­fica “testar, colocar à prova”. Uma tradução correta seria “provação [...] prova” (NVI) ou “teste [...] testa” (NASB).

O alcance mundial dessa prova mostra que a referência principal é ao período da chamada Grande Tribulação no tempo da Segunda Vinda. Mas há talvez uma aplicação secundária às perseguições romanas ao cristianismo, que se estendiam pela terra então conhecida — o Império Romano.

Tem havido uma discussão considerável se te guardarei da hora da tentação significa isenção do tempo da provação ou ser guardado nesse tempo. A palavra da no grego não é apo, “para longe de”, mas ek, que significa “fora de”. À luz disso, Carpenter escreve: “A promessa não significa ficar guardado longe da tribulação, mas ser guardado no meio dela” — da mesma forma que a cabeça de alguém é “mantida acima da água”. Swete escreve: “Para a igreja de Filadélfia a promessa era uma garantia de proteção em qualquer prova que lhe pudesse sobrevir”. Também é uma promessa para nós de que o nosso Senhor nos manterá em segurança em qualquer época de teste.

4.  Exortação (3.11)

Na carta para Filadélfia, como na carta para Esmirna, não há palavra de censura. Assim, passamos imediatamente para a exortação.

Ela começa com uma promessa misturada com advertência: Eis que venho sem demora. O significado principal de sem demora (cf. 22.20) é que o Senhor não atrasa­rá a sua vinda além do tempo fixado. Mas, uma vez que não sabemos quando isso acon­tecerá, devemos estar constantemente preparados. Além disso, para o Senhor mil anos são como um dia (2 Pe 3.8). Assim, dois mil anos ainda seriam sem demora.

A conexão próxima desse versículo com o anterior sugere que a vinda de Cristo vai livrar os seus da hora da tribulação. Alguns têm sugerido que, da mesma forma que os israelitas tiveram de tomar parte das três primeiras pragas (sangue, sapos, piolhos) com os egípcios (Êx 8.22), assim a Igreja poderá passar pela primeira parte da Grande Tribu­lação antes de ser levada por Cristo.

A igreja de Filadélfia é admoestada: guarda o que tens. Swete sabiamente obser­va: “A promessa de proteção (v. 10) traz consigo a responsabilidade de um esforço contí­nuo”. Coroa significa a “coroa da vitória”. A advertência é contra fracassar na corrida da vida e, consequentemente, perder o direito à coroa da vida. Ou seja: “toma cuidado para que ninguém tome a tua coroa”. Esse objetivo é alcançado ao correr com sucesso até o fim.

5. Recompensa (3.12)

Para o vitorioso será erguida uma coluna no templo do meu Deus. Swete comen­ta: “Há uma dupla propriedade nessa metáfora: enquanto a coluna dá estabilidade à construção que se apoia sobre ela, ela mesma está firme e permanentemente estabelecida; e esse lado do conceito frequentemente vem à tona [...] e é preeminente aqui”.

Uma vez que ele esteja estabelecido, dele [do templo] nunca sairá. Quando o período da provação chegar ao fim e o vencedor tiver se tornado uma coluna no templo eterno de Deus, não haverá mais possibilidades de cair. O caráter dos santos glorificados será firmado para sempre.

A respeito do vencedor, Cristo disse que escreveria três nomes: o nome do meu Deus [...] o nome da cidade do meu Deus[...] e também o meu novo nome. O nome de Deus, significando sua posse, era colocado sobre os israelitas; porque logo após a bela bênção sumo sacerdotal (Nm 6.24-26), é acrescentada: “Assim, porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei” (Nm 6.27). A nova Jerusalém é descrita em mais detalhes nos capítulos 21—22. Aqui há apenas uma referência de passagem acerca dela.

O que significa o meu novo nome? Trench diz que é esse “nome misterioso e, na necessidade das coisas, não comunicado e, para o tempo presente, incomunicável, que, nessa mesma visão mais sublime, é mencionado como: ‘e tinha um nome escrito que ninguém sabia, senão ele mesmo’ (19.12) [...] Mas o mistério desse novo nome, que nenhum homem é capaz de descobrir, que nessa condição presente ele não é capaz de receber, será dado aos santos e cidadãos da nova Jerusalém. Eles conhece­rão como são conhecidos (1 Co 13.12)”. Swete sugere que o novo nome de Cristo é “um símbolo para a glória mais completa de sua Pessoa e Caráter que aguardam revelação na sua Vinda”.

Três pensamentos se destacam nessa “Promessa ao Vencedor”: 1) Consagração com­pleta a Deus — o nome do meu Deus; 2) Cidadania intransferível na cidade celestial — o nome da cidade do meu Deus; 3) Conhecimento mais completo de Cristo na Segunda Vinda — meu novo nome.

6. Convite (3.13)

Ouça significa “preste atenção”. É o que queremos comunicar quando dizemos: “Ago­ra, escute-me”.

CARTA À IGREJA DE LAODICÉIA, 3.14-22

1.Destinatário (3.14a)

A KJV traduz aqui: “à igreja dos Laodicenses”. Essa tradução tem provocado uma série de comentários e interpretações. Mas ela praticamente não tem apoio dos manus­critos gregos. A tradução correta é: “à igreja que está em Laodicéia”. Ela é similar em forma com os destinatários das outras igrejas.

Laodicéia distava cerca de 60 quilômetros a sudeste de Filadélfia. Ela se localizava junto ao rio Licos, 10 quilômetros ao sul de Hierápolis e 16 quilômetros a oeste de Colossos. Fundada por Antíoco II (267-246 a.C.), essa cidade foi chamada de Laodicéia em homenagem à sua esposa, Laodice. Visto que estava localizada na junção de três estradas importantes, tornou-se uma grande cidade comercial e administrativa. O fato de ser um centro financeiro, a tornou tão próspera que foi capaz de reconstruir-se depois do grande terremoto em 60 d.C. sem o subsídio imperial. Ela também era conhecida pela fabricação de roupas e tapetes de uma lã preta, brilhante e macia. Laodicéia também era famosa por causa da sua renomada escola de medicina.

A igreja de Laodicéia já existia quando Paulo estava preso em Roma. Ele escreveu uma carta a ela (cf. Cl 4.16) que evidentemente se perdeu.

A cidade foi conquistada pelos turcos. No lugar existe hoje uma série de ruínas, ainda não escavadas.

2. Autor (3.14b)

Jesus aqui se identifica como o Amém. Isso pode ser um eco de Isaías 65.16, em que encontramos no hebraico: “o Deus do Amém” (ou “o Deus da verdade”). A palavra foi traduzida do hebraico para o grego e, tempos depois, para o inglês e outras línguas mo­dernas. Hoje, entre os cristãos de todos os países e línguas ouvimos o mesmo “Amém!”.

Provavelmente há uma conexão próxima entre o uso frequente desse termo por Je­sus como está relatado nos Evangelhos. Essa palavra aparece 51 vezes nos Sinóticos e 50 vezes no Evangelho de João. Ela é traduzida como “na verdade” (sempre duplo em João) na frase: “Na verdade vos digo”.

O autor mais adiante se descreve como a testemunha fiel e verdadeira. Isso provavelmente é sinônimo de o Amém, que é colocado aqui “porque essa é a última das sete epístolas, para que possa confirmar o todo”.

O terceiro item na descrição é: o princípio da criação de Deus. Mestres heréticos têm se aproveitado dessa frase como prova de que Cristo não era eterno. Mas em Colossenses, em que Ele é designado “o primogênito de toda a criação” (1.15), é mencio­nado logo em seguida: “porque nele foram criadas todas as coisas [...] E ele é antes de todas as coisas” (1.16-17). Além disso, em seu Evangelho, João diz acerca do Logos: “To­das as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). A frase aqui deve ser interpretada à luz dessas outras passagens. Ela significa “a origem (ou ‘fonte original’) da criação de Deus”.

3. Aprovação (3.15-17)

No caso da igreja de Laodicéia não há palavras de aprovação ou recomendação. É um fato impressionante que não se diga nada aqui acerca dos nicolaítas ou qualquer outro grupo herético. Pelo que tudo indica, a igreja era ortodoxa. Mas era uma ortodoxia morta. O que estava errado com a igreja de Laodicéia não era um problema da cabeça, mas um problema do coração. Isso era muito mais sério.

A essa igreja o Senhor disse: Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente. Tomara que foras frio ou quente (15). A palavra grega para frio (psychros) é usada somente nos versículos 15-16 e em Mateus 10.42 — “um copo de água fria”. Quente é zestos (somente nos vv. 15-16 no NT). Essa palavra significa “quente a ponto de ferver”, assim frio aqui provavelmente significa “frio a ponto de congelar”. A igreja não era nem friamente indiferente nem fervorosa no espírito (cf. Rm 12.11).

A reação do Cabeça da Igreja é expressa com palavras fortes: Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca (16). Alguns ali­mentos são gostosos somente quando estão frios, outros somente quando estão quentes. Alguns alimentos são gostosos tanto frios quanto quentes. A maioria das pessoas gosta de suco gelado e café ou chá quente; mas quem gosta de uma bebida morna? As palavras gregas para morno e vomitar (esta é emeo, no grego) são encontradas somente aqui no Novo Testamento.

A pior coisa a respeito da condição dessa igreja era sua auto complacência: Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta (17). A igreja evidente­mente refletia o comportamento da comunidade. Enriqueci­do significa literalmente: “acumulei riquezas” (mesma raiz de rico na frase anterior); em outras palavras: “Obtive minha riqueza com meu próprio esforço”. A primeira frase expressa autossatisfação; a segunda, orgulho.

Não existe um exemplo mais triste de orgulho insensível do que o que é exibido na declaração: de nada tenho falta. Que contraste com a humildade realista expressa nas palavras do hino “Preciso de Ti a toda hora”. Esse é o verdadeiro espírito cristão de dependência.

A avaliação de Cristo acerca dessa igreja era bem diferente da avaliação que essa igreja fez dela mesma. Ele disse: e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. O grego é consideravelmente mais vivido: “e não sabes que thou (enfático no gr. — tu que tens te vangloriado) és o desgraçado, e desprezível, e pobre, e cego e nu”. Desgraçado é encontrado somente aqui e em Romanos 7.24 (no texto grego): “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”. Miserável ocorre somente aqui e em 1 Coríntios 15.19: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.

Swete resume o restante do versículo da seguinte forma: “Os três adjetivos se­guintes relatam os motivos para a comiseração; um pedinte cego [...] escassamente vestido (cf. Jo 21.7) não era mais merecedor de compaixão do que essa igreja rica e presunçosa”. Pobre [...] cego [...] nu devem ser entendidos metaforicamente, des­crevendo a condição espiritual da igreja. No entanto, pode haver uma alusão indireta aos recursos ostentosos da cidade onde estavam localizados. A igreja era pobre em um centro financeiro opulento, cego em uma comunidade que tinha uma excelente escola de medicina, e nu em um lugar famoso pela fabricação de roupas feitas de uma lã de alta qualidade. É possível que a Igreja dos nossos dias prospere exterior­mente no meio de prosperidade material, e mesmo assim seja pobre, cega e espiritualmente nu.

4. Exortação (3.18-20)

A essa igreja opulenta, que “não tinha falta de nada”, Jesus disse: aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças (18). O termo compres é um eco de Isaías 55.1: “vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite”. Essa é a única maneira de com­prarmos de Deus. De mim é enfático. Essas coisas necessárias podem ser adquiri­das somente de Cristo.

Provado no fogo ou “refinado no fogo”, isto é, purificado pelo fogo. A mesma forma verbal ocorre na Septuaginta em Salmos 18.30 — “a palavra do Senhor é provada”. Em Provérbios 30.5, lemos “pura” — “Toda palavra de Deus é pura”. Assim, aqui significa que esse ouro é puro e genuíno.

Além disso, a igreja precisava de vestes brancas, para que te vistas, e não apa­reça a vergonha da tua nudez. A roupa branca e pura estava em contraste com a lã preta, pela qual Laodicéia era famosa.

Em terceiro lugar, Jesus aconselhou a igreja para que unjas os olhos com colírio, para que vejas. Acerca desse remédio, Charles diz: “Em nosso texto refere-se ao famoso pó da Frigia usado pela escola de medicina de Laodicéia”.

Não se deve deixar de notar que as três partes do versículo 18 correspondem aos últimos três adjetivos do versículo 17: “pobre”, “nu”, “cego”. A igreja de Laodicéia achava que não precisava de nada. Na verdade, ela sentia falta das necessidades mais básicas da vida espiritual.

Nesse versículo, vemos “O que é o Evangelho”: 1) Riqueza divina para nossa pobreza espiritual; 2) Veste branca de justiça para nossa pecaminosidade; 3) Visão espiritual para nossa cegueira.

A exortação continua: Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê, pois, zeloso e arrepende-te (19). O castigo é um sinal do cuidado amoroso de Deus como nosso Pai celestial (cf. Hb 12.5-11). É interessante que o verbo amo aqui não é o costu­meiro agapao, mas phileo, que introduz um toque meigo e sentimental — para a igreja que menos o merecia! Repreendo é “declarar culpado”. Castigo é literalmente “educar uma criança”. Tudo isso mostra a compaixão de Cristo em lidar com essa igreja como uma criança geniosa que precisava do amor e disciplina do Pai. Swete observa: “Talvez a condição deplorável da igreja de Laodicéia era devida à falta de correção; não há nenhu­ma palavra de quaisquer provas até aqui sofridas por essa igreja”.

Essa igreja tinha falta de “tempero” (veja comentários acerca de “quente”, v. 15). Ela carecia de zelo. Assim, o Senhor disse: sê, pois, zeloso (imperativo presente, sê constan­temente zeloso). Arrepende-te está no aoristo, requerendo uma ação imediata em uma decisão crucial.

Pode parecer estranho que sê [...] zeloso preceda arrepende-te. Plumptre obser­va: “A raiz da maldade da igreja de Laodicéia e seus representantes era sua indiferença e mornidão, a ausência de qualquer zelo, de qualquer seriedade. E o primeiro passo, portanto, para coisas mais elevadas era passar para um estado em que esses elementos de vida não mais seriam manifestos pela sua ausência”.

A esse chamado para arrependimento “Cristo acrescenta a mensagem mais terna encontrada nessas cartas”: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele, comigo (20). Esse é um dos mais importantes textos do evangelho no Novo Testamento e deveria ser citado frequentemente na evangelização pública e na abordagem pessoal. Por esse moti­vo, esse versículo deveria ser memorizado por todo cristão e ganhador de almas.

A simplicidade do evangelho é expressa de maneira singular nessa passagem. Cris­to está parado à porta do coração de cada pecador, batendo e esperando para entrar. Ele não vai demolir a porta e forçar a entrada, porque nos criou com vontade própria e não violará esse aspecto. Mas se o pecador abrir a porta, o que só ele pode fazer, o Salvador promete entrar. A grande tela de Holman Hunt, “A Luz do Mundo”, é a evangelização tornada visual.

A ideia de “cear” é de comunhão, e mais especificamente de uma comunhão sem pressa ao redor da mesa do jantar, quando a agitação do dia passou. O pensamento é expresso belamente pela NEB: “e sentar para jantar com ele”. Esse aspecto também antevê o banquete eterno com Cristo.

A comunhão é dupla. G. Campbell Morgan a descreve da seguinte forma: “Primeiro, serei seu Convidado, ‘Eu cearei com ele’. Ele será o meu convidado, ‘e ele comigo’. Senta­rei à mesa que o seu amor provê e satisfarei o meu coração. Ele sentará à mesa que o meu amor proverá e satisfará o seu coração”.

5. Recompensa (3.21)

A promessa final é: Ao que vencer, lhe concederei que se assente comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono.

Esse é um eco e extensão da promessa que Jesus fez aos seus doze apóstolos em Mateus 19.28 e Lucas 22.29,30. Jesus venceu todas as tentações e provações na sua vida na terra e recebeu sua recompensa. Para aqueles que o seguem plena e fielmen­te até o fim, uma recompensa igual o estará aguardando. Essa promessa obviamente antecipa a vida futura.

6. Convite (3.22)

Mais uma vez os ouvintes dessas cartas são admoestados a ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Todas as sete mensagens estão repletas de advertências e exortações salutares para os cristãos de hoje. Faríamos bem se prestássemos atenção a elas.

Bibliografia Ralph Earle

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